Mensagem à Conferência da Mãe Terra Eduardo Galeano - 29/04/2010
“Os direitos humanos e os direitos da natureza são equivalentes”*
Eduardo Galeano
Lamentavelmente, não poderei estar aí, por impedimentos de última hora. Entretanto, quero acompanhar de alguma maneira essa reunião de vocês, esta reunião dos meus. Como não tenho outra opção, vou fazer o pouquinho que posso e não o muito que quero. E por estar, mesmo sem estar presente, ao menos lhes envio essas palavras.
Oxalá possamos fazer todo o possível - e o impossível também - para que a Conferência da Mãe Terra seja a primeira etapa para a expressão coletiva dos povos que não controlam a política mundial e, sim, padecem dela.
Tomara que sejamos capazes de levar em frente essas duas iniciativas do companheiro Evo, o Tribunal de Justiça Climática e o Referendo Mundial, que vão contra um sistema de poder criado em meio a guerras e destruição, que deprecia a vida humana e levanta a bandeira da venda dos nossos bens terrenos.
Tomara que sejamos capazes de falar pouco e agir mais. Danos graves foram e continuam sendo feitos. A inflação de palavras na América Latina é mais nociva que a inflação monetária. Também, e principalmente, estamos fartos da hipocrisia dos países ricos, que nos estão deixando sem planeta enquanto pronunciam pomposos discursos para disfarçar o sequestro.
Há quem diga que a hipocrisia é o imposto que o vício paga à virtude. Outros dizem que a hipocrisia e a única prova da existência do infinito. O palavrório da chamada “comunidade internacional”, esse clube de banqueiros e guerreiros, prova que as duas definições são corretas.
Eu quero comemorar, ao contrário, a força da verdade que irradia as palavras e o silêncio que nasce da comunhão humana com a natureza. E não é coincidência que esta Conferência da Mãe Terra esteja sendo realizada na Bolívia, esta nação de nações que está se redescobrindo ao longo de séculos de mentiras.
A Bolívia acaba de celebrar dez anos da vitória popular na guerra da água, quando o povo de Cochabamba foi capaz de derrotar uma poderosa empresa da Califórnia, que se tornou dona da água graças a um governo que se disse boliviano, mas que foi muito generoso com o alheio. Essa guerra foi só uma das batalhas, pois esta terra segue lutando em defesa dos recursos naturais, ou seja: em defesa da sua identidade com a natureza.
Existem vozes do passado que falam do futuro.
A Bolívia é uma das nações americanas onde as culturas indígenas souberam sobreviver, e essas vozes agora ecoam com mais força do que nunca, apesar do longo tempo de perseguição e desprezo.
O mundo inteiro, atordoado como está, perambulando como cego em tiroteio, teria que escutar essas vozes. Elas nos ensinam que nós, os ‘humanitos’, somos parte da natureza, parente de todos os que têm pernas, patas, asas ou raízes. A conquista européia condenou por idolatria os indígenas que viviam essa comunhão e, por acreditar nela, foram torturados, degolados ou queimados vivos.
Desde o tempo do Renascimento europeu, a natureza se converteu em mercadoria ou em obstáculo para o progresso humano. E até hoje esse divórcio entre nós e a natureza persiste, a tal ponto que ainda existem pessoas de boa vontade que se comovem pela ‘pobre natureza, tão maltratada, tão ferida’, observando tudo de fora.
As culturas indígenas a observam de dentro. Ao observá-la me vejo. O que eu fizer contra ela, estarei fazendo comigo mesmo. Nela estou, minhas pernas também são os caminhos que percorrem.
Celebremos esta Conferência de Pachamama. E tomara que os surdos escutem: os direitos humanos e os direitos da natureza são equivalentes.
Voam abraços, desde Montevideo.
*tradução: Isaac Pereira
sexta-feira, 30 de abril de 2010
Povos
A Conferência Mundial dos Povos Leonardo Boff - 29/04/2010
Como é sabido, em dezembro de 2009 realizou-se em Copenhague a Conferência Mundial dos Estados sobre o Clima. Não se chegou a nenhum consenso porque foi dominada pela lógica do capital e não pela lógica da ecologia. Isso significa: os delegados e chefes de Estado presentes representavam mais seus interesses econômicos que seus povos. A questão para eles era: quanto deixo de ganhar aceitando preceitos ecológicos que visam purificar o planeta e assim garantir as condições para a continuidade da vida. Não se via o todo, a vida e a Terra, mas os interesses particulares de cada país.
A lógica ecológica vê o interesse coletivo, pois visa o equilíbrio entre ser humano e natureza, entre produção, consumo e capacidade de recomposição dos recursos e serviços da Terra. Rompendo esta equação, coisa que o modo de produção capitalista já vem fazendo há séculos, surgem efeitos não desejados, chamados de "externalidades": devastação da natureza, graves injustiças sociais, desconsideração das necessidades das futuras gerações e o efeito irreversível do aquecimento global que, no limite, pode pôr tudo a perder.
Em Cochabamba, na Bolívia, viu-se exatamente o contrário: o triunfo da lógica da ecologia e da vida. Nos dias 19-23 de abril celebrou-se a Cúpula Mundial dos Povos sobre as Mudanças Climáticas e os Direitos da Mãe Terra. Ali estavam 35.500 representantes dos povos da Terra, vindos de 142 países. A centralidade era ocupada pela Terra, tida como Pachamama, grande Mãe, sua dignidade e direitos, a vida em toda sua imensa diversidade (superação de qualquer antropocentrismo), nossa responsabilidade comum para garantir as condições ecológicas, sociais e espirituais que nos permitem viver, sem ameaças, nesse planeta.
Os 17 meses de trabalho, ao contrário de Copenhague, chegaram a um extraordinário consenso, pois todos tinham na mente e no coração o amor à vida e à Pachamama "com a qual todos temos uma relação indivisível, interdependente, complementar e espiritual", como diz o documento final.
No lugar do capitalismo competitivo, do progresso e do crescimento ilimitado, hostil ao equilíbrio com a natureza, se colocou o “bem viver", categoria central da cosmologia andina, verdadeira alternativa para a humanidade, que consiste em viver em harmonia consigo mesmo, com os outros, com a Pachamama, com as energias da natureza, do ar, do solo, das águas, das montanhas, dos animais e das plantas e em harmonia com os espíritos e com a Divindade, sustentada por uma economia do suficiente e decente para todos, incluídos os demais seres.
Elaborou-se uma Declaração dos Direitos da Mãe Terra que prevê, entre outros, o direito à vida e à existência; o direito de ser respeitada; o direito à continuação de seus ciclos e processos vitais, livre de alterações humanas; o direito a manter sua identidade e integridade com seus seres diferenciados e interrelacionados; o direito à água como fonte de vida; o direito ao ar limpo; o direito à saúde integral; o direito a estar livre da contaminação e poluição, de dejetos tóxicos e radioativos; o direito a uma restauração plena e pronta das violações infligidas pelas atividades humanas.
Previu-se também a criação de um Tribunal Internacional de Justiça Climática e Ambiental, com capacidade jurídica e vinculante de prevenir, julgar e sancionar os Estados, empresas e pessoas por ações ou omissões que contaminem e provoquem mudanças climáticas e que cometam graves atentados aos ecossistemas que garantem o “bem viver”.
Resolveu-se levar os resultados desta Cúpula dos Povos à ONU para que seus conteúdos sejam contemplados na próxima Conferência Mundial, a realizar-se em dezembro deste ano em Cancún, no México.
O significado mais profundo desta Cúpula é a convicção, crescente entre os povos, de que não podemos mais confiar o destino da vida e da Terra aos chefes de Estado, reféns de seus dogmas capitalistas.
O Brasil, lamentavelmente, não enviou nenhum representante, pois para o atual governo parece ser mais importante a "aceleração do crescimento" que garantir o futuro da vida. Esta Cúpula dos Povos apontou a direção certa, rumo a uma biocivilização em equilíbrio de todos com todos e com tudo.
Agradeço a atenção,
Como é sabido, em dezembro de 2009 realizou-se em Copenhague a Conferência Mundial dos Estados sobre o Clima. Não se chegou a nenhum consenso porque foi dominada pela lógica do capital e não pela lógica da ecologia. Isso significa: os delegados e chefes de Estado presentes representavam mais seus interesses econômicos que seus povos. A questão para eles era: quanto deixo de ganhar aceitando preceitos ecológicos que visam purificar o planeta e assim garantir as condições para a continuidade da vida. Não se via o todo, a vida e a Terra, mas os interesses particulares de cada país.
A lógica ecológica vê o interesse coletivo, pois visa o equilíbrio entre ser humano e natureza, entre produção, consumo e capacidade de recomposição dos recursos e serviços da Terra. Rompendo esta equação, coisa que o modo de produção capitalista já vem fazendo há séculos, surgem efeitos não desejados, chamados de "externalidades": devastação da natureza, graves injustiças sociais, desconsideração das necessidades das futuras gerações e o efeito irreversível do aquecimento global que, no limite, pode pôr tudo a perder.
Em Cochabamba, na Bolívia, viu-se exatamente o contrário: o triunfo da lógica da ecologia e da vida. Nos dias 19-23 de abril celebrou-se a Cúpula Mundial dos Povos sobre as Mudanças Climáticas e os Direitos da Mãe Terra. Ali estavam 35.500 representantes dos povos da Terra, vindos de 142 países. A centralidade era ocupada pela Terra, tida como Pachamama, grande Mãe, sua dignidade e direitos, a vida em toda sua imensa diversidade (superação de qualquer antropocentrismo), nossa responsabilidade comum para garantir as condições ecológicas, sociais e espirituais que nos permitem viver, sem ameaças, nesse planeta.
Os 17 meses de trabalho, ao contrário de Copenhague, chegaram a um extraordinário consenso, pois todos tinham na mente e no coração o amor à vida e à Pachamama "com a qual todos temos uma relação indivisível, interdependente, complementar e espiritual", como diz o documento final.
No lugar do capitalismo competitivo, do progresso e do crescimento ilimitado, hostil ao equilíbrio com a natureza, se colocou o “bem viver", categoria central da cosmologia andina, verdadeira alternativa para a humanidade, que consiste em viver em harmonia consigo mesmo, com os outros, com a Pachamama, com as energias da natureza, do ar, do solo, das águas, das montanhas, dos animais e das plantas e em harmonia com os espíritos e com a Divindade, sustentada por uma economia do suficiente e decente para todos, incluídos os demais seres.
Elaborou-se uma Declaração dos Direitos da Mãe Terra que prevê, entre outros, o direito à vida e à existência; o direito de ser respeitada; o direito à continuação de seus ciclos e processos vitais, livre de alterações humanas; o direito a manter sua identidade e integridade com seus seres diferenciados e interrelacionados; o direito à água como fonte de vida; o direito ao ar limpo; o direito à saúde integral; o direito a estar livre da contaminação e poluição, de dejetos tóxicos e radioativos; o direito a uma restauração plena e pronta das violações infligidas pelas atividades humanas.
Previu-se também a criação de um Tribunal Internacional de Justiça Climática e Ambiental, com capacidade jurídica e vinculante de prevenir, julgar e sancionar os Estados, empresas e pessoas por ações ou omissões que contaminem e provoquem mudanças climáticas e que cometam graves atentados aos ecossistemas que garantem o “bem viver”.
Resolveu-se levar os resultados desta Cúpula dos Povos à ONU para que seus conteúdos sejam contemplados na próxima Conferência Mundial, a realizar-se em dezembro deste ano em Cancún, no México.
O significado mais profundo desta Cúpula é a convicção, crescente entre os povos, de que não podemos mais confiar o destino da vida e da Terra aos chefes de Estado, reféns de seus dogmas capitalistas.
O Brasil, lamentavelmente, não enviou nenhum representante, pois para o atual governo parece ser mais importante a "aceleração do crescimento" que garantir o futuro da vida. Esta Cúpula dos Povos apontou a direção certa, rumo a uma biocivilização em equilíbrio de todos com todos e com tudo.
Agradeço a atenção,
Anistia
Não se anistia o nazismo. Nem a tortura Pedro Simon - O GLOBO - 28/04/2010
O Supremo Tribunal Federal terá nesta quarta-feira a oportunidade de reconciliar o país com sua história, de ajustar a memória à verdade, lavando uma ferida que ainda sangra e machuca. O STF julgará, enfim, a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) n o153, proposta em outubro de 2008 pelo Conselho Federal da OAB.
O que pede a OAB é simples: que o STF interprete o Artigo 1oda Lei da Anistia declarando, de forma clara e definitiva, que a anistia não se aplica aos crimes de tortura praticados por agentes da repressão durante o regime militar de 1964. Tortura e desaparecimento forçado são crimes de lesahumanidade, imprescritíveis. Não podem ser objeto de anistia ou autoanistia.
Lei nenhuma, no Brasil ou no mundo, acolhe ou reconhece a tortura. O Brasil é o único país da América Latina que ainda não julgou criminalmente quem torturou e matou. Ao longo de 21 anos de regime autoritário, vicejou aqui um sistema repressivo estimado em 24 mil agentes que, devido a razões políticas, prendeu cerca de 50 mil brasileiros e torturou algo em torno de 20 mil pessoas - uma média de três torturas a cada dia de ditadura.
“Anistia não é amnésia”, lembrou o ex-presidente da OAB Cezar Britto. Tortura não é crime político. É pior: é um grave atentado à dignidade humana – ontem, hoje e sempre. Torturadores que atentaram contra a vida e a dignidade não são esquecidos em todos os lugares, em todos os tempos. É por isso que, até hoje, criminosos de guerra nazistas, apesar de seus 80 ou 90 anos, ainda são caçados.
Não é pelo prazer da caça, mas pelo dever moral que a civilização tem de lembrar a todos que seus crimes não se apagam, não se perdoam. No Tribunal de Nuremberg, que julgou os criminosos nazistas da II Guerra Mundial, a defesa dos principais chefes do III Reich alegou que eles apenas “cumpriam ordens”. O juiz americano Francis Biddle fulminou esta tese com uma frase imortal: “Os indivíduos têm deveres internacionais a cumprir, acima dos deveres nacionais que um Estado particular possa impor.” Ficou assim encravado na consciência moral do mundo que todos nós somos responsáveis pelos atos que praticamos. Ninguém é inocente para “cumprir ordens” contra a lei, a moral, a ética e a verdade.
Ninguém, neste país, tinha ordens para torturar. Nem mesmo o AI-5, a lei mais dura do período mais sangrento do regime de 64, mencionava ou liberava o uso da tortura. Os torturadores têm algo em comum: eles têm vergonha do que fizeram. É um crime, portanto, sem pai nem mãe. Anistia não é esquecimento, é perdão. Não se pode esquecer o que não se conhece. Também não se pode perdoar o que não foi punido - privilégio imaculado de todos os torturadores que ainda existem no país. O nazismo não merecia a amnésia, muito menos a anistia. A tortura, também.
O historiador americano Edward Peters, da Universidade da Pensilvânia, escreveu: “O futuro da tortura está indissoluvelmente ligado ao futuro dos torturadores”. No berço da tortura não punida nasceu a impunidade da violência não resolvida do Brasil - antes na ditadura, agora na democracia. A impunidade do torturador acaba garantindo a perenidade da tortura e de sua filha dileta, a violência. O Brasil que evita punir ou sequer apontar os torturadores da ditadura acaba banalizando a violência que vitimiza o cidadão comum em plena democracia. Esta mesma impunidade que nasceu nos quartéis sobrevive hoje nas ruas.
A tortura é verdade. A verdade sob tortura é mentira. Esconder da história a verdade é a maior de todas as mentiras. Não podemos ser cúmplices. O esquecimento da história é o berço da impunidade. E a impunidade é ancestral da violência. Punir os torturadores, de hoje e de ontem, não é revanchismo. É uma obrigação moral e ética de um país que deve olhar sem medo para trás, para encarar sem receios o caminho que tem pela frente. Vamos lavar e cicatrizar nossas feridas, acatando o pedido da OAB e os clamores de um país consciente de seu passado e confiante em seu futuro.
*Pedro Simon é senador.
O Supremo Tribunal Federal terá nesta quarta-feira a oportunidade de reconciliar o país com sua história, de ajustar a memória à verdade, lavando uma ferida que ainda sangra e machuca. O STF julgará, enfim, a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) n o153, proposta em outubro de 2008 pelo Conselho Federal da OAB.
O que pede a OAB é simples: que o STF interprete o Artigo 1oda Lei da Anistia declarando, de forma clara e definitiva, que a anistia não se aplica aos crimes de tortura praticados por agentes da repressão durante o regime militar de 1964. Tortura e desaparecimento forçado são crimes de lesahumanidade, imprescritíveis. Não podem ser objeto de anistia ou autoanistia.
Lei nenhuma, no Brasil ou no mundo, acolhe ou reconhece a tortura. O Brasil é o único país da América Latina que ainda não julgou criminalmente quem torturou e matou. Ao longo de 21 anos de regime autoritário, vicejou aqui um sistema repressivo estimado em 24 mil agentes que, devido a razões políticas, prendeu cerca de 50 mil brasileiros e torturou algo em torno de 20 mil pessoas - uma média de três torturas a cada dia de ditadura.
“Anistia não é amnésia”, lembrou o ex-presidente da OAB Cezar Britto. Tortura não é crime político. É pior: é um grave atentado à dignidade humana – ontem, hoje e sempre. Torturadores que atentaram contra a vida e a dignidade não são esquecidos em todos os lugares, em todos os tempos. É por isso que, até hoje, criminosos de guerra nazistas, apesar de seus 80 ou 90 anos, ainda são caçados.
Não é pelo prazer da caça, mas pelo dever moral que a civilização tem de lembrar a todos que seus crimes não se apagam, não se perdoam. No Tribunal de Nuremberg, que julgou os criminosos nazistas da II Guerra Mundial, a defesa dos principais chefes do III Reich alegou que eles apenas “cumpriam ordens”. O juiz americano Francis Biddle fulminou esta tese com uma frase imortal: “Os indivíduos têm deveres internacionais a cumprir, acima dos deveres nacionais que um Estado particular possa impor.” Ficou assim encravado na consciência moral do mundo que todos nós somos responsáveis pelos atos que praticamos. Ninguém é inocente para “cumprir ordens” contra a lei, a moral, a ética e a verdade.
Ninguém, neste país, tinha ordens para torturar. Nem mesmo o AI-5, a lei mais dura do período mais sangrento do regime de 64, mencionava ou liberava o uso da tortura. Os torturadores têm algo em comum: eles têm vergonha do que fizeram. É um crime, portanto, sem pai nem mãe. Anistia não é esquecimento, é perdão. Não se pode esquecer o que não se conhece. Também não se pode perdoar o que não foi punido - privilégio imaculado de todos os torturadores que ainda existem no país. O nazismo não merecia a amnésia, muito menos a anistia. A tortura, também.
O historiador americano Edward Peters, da Universidade da Pensilvânia, escreveu: “O futuro da tortura está indissoluvelmente ligado ao futuro dos torturadores”. No berço da tortura não punida nasceu a impunidade da violência não resolvida do Brasil - antes na ditadura, agora na democracia. A impunidade do torturador acaba garantindo a perenidade da tortura e de sua filha dileta, a violência. O Brasil que evita punir ou sequer apontar os torturadores da ditadura acaba banalizando a violência que vitimiza o cidadão comum em plena democracia. Esta mesma impunidade que nasceu nos quartéis sobrevive hoje nas ruas.
A tortura é verdade. A verdade sob tortura é mentira. Esconder da história a verdade é a maior de todas as mentiras. Não podemos ser cúmplices. O esquecimento da história é o berço da impunidade. E a impunidade é ancestral da violência. Punir os torturadores, de hoje e de ontem, não é revanchismo. É uma obrigação moral e ética de um país que deve olhar sem medo para trás, para encarar sem receios o caminho que tem pela frente. Vamos lavar e cicatrizar nossas feridas, acatando o pedido da OAB e os clamores de um país consciente de seu passado e confiante em seu futuro.
*Pedro Simon é senador.
CAPITALISMO
Novo precedente de luta no atual capitalismo: o primeiro encontro internacional dos atingidos pela Vale Ana S. Garcia - 29/04/2010
Um momento histórico. Assim descreveram muitos dos participantes este primeiro encontro internacional. Por primeira vez, representantes de organizações, sindicatos e comunidades em lutacontra a mineradora brasileira Vale se reuniram na cidade onde se encontra seu “headquarter”. Abrimos um precedente: nunca houve tal articulação frente a uma empresa brasileira. Historicamente, são as estadunidenses ou européias que vêm explorar nossos recursos, nossa mão de obra, levar a riqueza e deixar a pobreza. São eles os imperialistas. O encontro mostrou, no entanto, que a Vale faz o mesmo. Seu diferencial é um símbolo de verde e amarelo e o apoio do Estado brasileiro. Ela se diz representante do Brasil nos lugares onde chega. Um Brasil que está crescendo, se tornando “desenvolvido”, e buscando participar das instâncias de governança global para ditar as regras no sistema internacional junto aos grandes, sem questionar ou alterar, no entanto, a hierarquia internacional do próprio sistema capitalista.
A Vale atua hoje em cerca de 30 países. Sua internacionalização tem inicio após sua consolidação do mercado interno brasileiro, onde cresceu e adquiriu bases para se internacionalizar, devido ao apoio do Estado e do povo brasileiro, que ergueu o “império Vale” com o seu trabalho. Já em 1984 ela compra parte da siderúrgica California Steel Industries, em conjunto com uma siderúrgica japonesa. No início dos anos 90, ela entra na Europa comprando parte de uma siderúrgica francesa. Mas é a partir de 2001, com a administração de Roger Agnelli, que a Vale inicia uma política agressiva de expansão internacional: em 2000 ela entra no Oriente Médio adquirindo 50% da Gulf Industrial Investment Company (empresa de capital norteamericano); 2001 e 2002 ela inicia projetos de minerais não ferrosos no Peru e no Chile; e em 2003 adquire parte de uma empresa norueguesa, criando a Rio Doce Manganese Norway (1).
A internacionalização da Vale tem dois momentos centrais, que irão determinar sua atuação dentro e fora do Brasil nos dias de hoje. Primeiro, o maior mercado consumidor de minério de ferro do mundo – a China – fecha com a Vale em 2001 um acordo de fornecimento de 6 milhões de toneladas de minério de ferro por ano, ao longo de 20 anos. As negociações entre as mineradoras mundiais e a Baosteel chinesa tornam – se referência para o preço anual do minério de ferro no mercado internacional (2). A Vale é altamente dependente do mercado mundial, sendo a China o destino de 17 de suas vendas.
Segundo, a compra da mineradora canadense Inco, em 2006, torna a Vale a maior produtora mundial de níquel, além do minério de ferro. A criação da Vale Inco tem impactos gerais na economia brasileira, tornando o Brasil um investidor internacional, e não apenas um receptor de investimentos estrangeiros (3). A compra da Inco compreendeu US$ 19 bilhões, sendo seu preço US$ 17,8 bilhões mais US$ 1,2 bilhão de dívida líquida (4). Para esta compra, ela se associou a bancos internacionais, como Credit Suisse, UBS, ABN Amro e Santander. Com isso, o endividamento da Vale aumentou para US$ 22 bilhões em 2006 (5). Este fato, juntamente com a queda relativa do preço mundial do níquel no ano de 2009, pode explicar a postura agressiva da Vale contra os trabalhadores canadenses, buscando romper com direitos adquiridos ao longo de décadas de lutas trabalhistas na antiga Inco. No entanto, os trabalhadores se recusam a arcar com os custos de um possível “mal negócio” da Vale, e resistem em um greve histórica.
A compra da Inco também significou a diminuição de sua base brasileira: de 98% dos ativos até 2006, passou a 60% (6). A companhia incorporou projetos na Indonésia e Nova Caledônia. Em 2007 ela entra no mercado de carvão, com a compra da AMCI australiana, e com o projeto da mina de Moatize em Moçambique. As atividades na África, apesar de apresentadas como um “mercado natural” para o Brasil, devido a similitudes de língua e histórica, buscam, na verdade, garantir espaços de exploração na competição com empresas chinesas com vistas ao mercado daquele país.
Nota-se que a estratégia de internacionalização da Vale está ligada ao controle de toda a cadeia produtiva, no sentido de “integração para trás” na cadeia siderúrgica, onde a empresa garante o fornecimento do produto primário. A Vale buscou “enxugar” suas operações logo após a privatização, e passou a especializar-se em minério de ferro e logística. Sua logística é utilizada a serviço do agronegócio e da siderurgia, transportando produtos do aço, soja, fertilizantes, combustíveis, entre outros (7). Ao mesmo tempo, ela busca o controle de toda a cadeia de produção, incluindo por exemplo o fornecimento de energia, entrando assim em projetos de grandes hidrelétricas, em especial no estado de Minas Gerais, mas também no norte do país, como atualmente Belo Monte (8). A sua expansão no setor de fertilizantes está também diretamente ligada à internacionalização: os projetos na Argentina, Peru, Moçambique e Canadá visam a produção de potássio e fosfato, necessário para produção de fertilizantes, que será aumentada com compra de parte das operações da Bunge pela Vale (9).
Participantes do Canadá, Moçambique, Chile, Peru, Argentina e Nova Caledônia vieram ao encontro internacional no Rio de Janeiro denunciar os problemas na atuação da Vale nos seus países. Os participantes brasileiros responderam a eles com um espelho, um reflexo, uma dupla face. A exploração dos trabalhadores, o desrespeito ao meio ambiente e aos direitos humanos mais básicos nas comunidades são padrões que a Vale vem buscando impor nos outros países, do mesmo modo que dentro do Brasil,nas localidades onde atua. Diferentemente de empresas do chamado “primeiro mundo”, a Vale não atua com um duplo padrão de comportamento, mas sim uma “corrida para baixo”. E o caso dos direitos trabalhistas no Canadá, Itabira, Congonhas, Parauapebas e Barcarena; de comunidades que lutam por indenizações justas e contra remoções forçadas, como em Moçambique e Açailândia; do uso de milícias armadas no Peru e no Rio de Janeiro; desrespeitos às populações indígenas na Nova Caledônia e no Norte do Brasil; ameaça de impactos ambientais e poluição no Chile, Argentina, Serra da Gandarela, Ourilândia do Norte e Canaã dos Carajás. Participantes internacionais expuseram uma realidade que os movimentos sociais e sindicais no Brasil conhecem na própria pele, nas próprias experiências de vida de cada pessoa presente nesta jornada de abril.
Podemos afirmar que o encontro refletiu uma dinâmica dupla do imperialismo atual: o aprofundamento do capitalismo para dentro ao mesmo tempo que sua expansão para fora. Esta é a forma com que Panitch e Gindin descrevem a fase imperialista estadunidense, a deepen of capital at home and expansion of capital abroad (10). O capitalismo brasileiro amadureceu, se aprofundou, e por sua vez se transnacionalizou. Em sua análise sobre o imperialismo, Lenin cita um discurso do político inglês Cecil Rhodes, que afirmava que o imperialismo era necessário para acalmar as massas de trabalhadores na Inglaterra. “O império é uma questão de estômago”, segundo ele era necessário ser imperialista para amansar as massas e evitar uma guerra civil (11). No Brasil, e no caso da Vale, isto se verifica de forma diferente. A expansão das empresas brasileiras para o exterior estaria de alguma forma beneficiando a classe trabalhadora no Brasil? Como os lucros feitos pelas empresas no exterior são revertidos para o país? Não há estudos claros sobre isso, mas algo é certo: as comunidades e trabalhadores são explorados dentro e fora do Brasil. Como diversas vezes repetido durante o encontro, a riqueza é privatizada, mas a pobreza e os passivos ambientais e sociais são socializados. O papel de manter as massas acalmadas é jogado especialmente pelo Estado brasileiro, com políticas sociais que levam a uma relativa melhoria financeira nas famílias mais pobres. O preço que pagamos por esta relativa melhoria de curto prazo é o silêncio frente aos problemas permanentes, que não são de hoje, e somente têm chance real de serem solucionados pela pressão e organização popular. A empresa aparenta não ter qualquer preocupação em considerar os seres humanos e a natureza, suas duas principais fontes de exploração e riqueza. A ganância pelo lucro e a truculência com a classe trabalhadora é a principal característica de sua atuação, descrita por todos os participantes do encontro.
O encontro foi mais do que um evento de três dias no Rio de Janeiro. Ele foi um processo de um ano de preparação, contatos, conversas, teleconferências, viagens, reuniões. Foi uma construção contínua. Também não foi um simples evento de longas mesas de discussão. As caravanas no Norte e em Minas Gerais deram a todos nós a vivência e convivência real entre iguais. Imagine-se um camponês peruano que desce da Van no alto de uma serra em Conceição do Mato Dentro – no morro ao lado um barulho forte e fumaça da explosão da pedreira de uma mineradora. Ele se encontra com um grupo de camponeses, pés descalços, negros, confusos e sem esperança. São remanescentes de quilombolas. Estão ameaçados de expulsão de suas terras, que pertencem a várias gerações de suas famílias. Com os olhos um no outro, um reconhecimento, e uma sensação de que há de motivar o outro à luta. O camponês de Cajamarca diz aos seus companheiros de Minas Gerais: “Somos como arboles. Vamos a morrir en pie, pero nunca de rodillas”. Em Itabira, cidade natal da Vale, enfeitada com poemas de Carlos Drummond em cada esquina, impressos em chapas de aço feitas com o minério de ferro da própria cidade. Descem da Van dois trabalhadores operários da Vale Inco no Canadá. Estão em plena luta, há 9 meses em greve pela preservação de seus direitos adquiridos através também da luta de seus avós e pais. Sentem-se em casa ao chegarem na sede do sindicato que os recebe, há café, água, biscoitos, uma estrutura confortável. Frente a frente, se reconhecem nos companheiros, trabalhadores e sindicalistas de Itabira. Pedem apoio a sua luta. Um deles diz aos colegas: “Me perguntaram aqui como estamos aguentando nove meses em greve. Eu não tinha parado para pensar. Posso dizer que não tenho outra escolha. Não posso olhar nos olhos dos meus filhos, não posso pensar em jogar para o alto, sem lutar, o que meus pais e avós conquistaram. É o mesmo que tirar o futuro de meus filhos. Antes eu era apenar um trabalhador. Agora eu sou um militante”. Muitas trocas, muitos vivências, uma sensação de estarmos a vontade com pessoas que tínhamos acabado de conhecer.
No Rio de Janeiro, tivemos dias afobados. Correria, de repente, muita gente, muito mais do que esperávamos. Tivemos a sensação de sermos grandes. O que nos une mundialmente? Quais são nossas demandas? Quais são as nossas estratégias de enfrentamento? Podemos ter estratégias comuns? Sentimentos oscilavam entre a euforia de termos conseguido realizar este encontro, a emoção de vermos a enorme representação de organizações e países, ao mesmo tempo, as dificuldades frente a uma empresa tão poderosa. E as dificuldades de conciliar diferentes expectativas e demandas. Entre objetivos políticos de longo prazo, e necessidades imediatas de populações atingidas. Entre a luta pela soberania nacional e popular, e o questionamento do modelo de desenvolvimento baseado na extração dos recursos naturais. Entre trabalhadores e sindicalistas que têm na mineração sua fonte de renda e trabalho, e comunidades e ambientalistas que lutam para impedir a entrada da mineração em seu território. Demandas pela reestatização da Vale no Brasil e estatização nos outros países, e demandas por compensação e reparação de danos ambientais e indenização a famílias removidas. Experiências com empreendimentos mineradores e siderúrgicos de muitas décadas, lutas pela mitigação dos impactos de empreendimentos recentes, e a rejeição completa à instalação da atividade mineradora e siderúrgica. Afinal, o que nos une? O que estamos fazendo juntos aqui? Muitas diferenças políticas não se iniciaram neste encontro, e portanto não foram solucionadas ali. Mas algo pareceu claro: a luta nos une. A luta por direitos e a luta pela mudança do sistema devem caminhar juntas. Dentro de cada comunidade, movimento, todas as lutas foram reconhecidas por todos como legitimas. O reconhecimento mútuo gerou o sentimento de união. Lutadores e lutadoras se sentiram unidos frente a um mesmo inimigo, uma empresa transnacional que é reflexo da atual fase do capitalismo mundial. Saímos mais unidos, muito emocionados e muito mais fortes.
∗ Ana S. Garcia é doutoranda em Relações Internacionais pela PUC-Rio, e membro do Instituto Rosa Luxemburg Stiftung.
(1) Godeiro, Nazareno/ Moura, Efrain/ Soares, Paulo/ Vieira, Valério: “Vale do Rio Doce. Nem tudo que reluz é ouro, da privatização à luta pela reestatização". São Paulo, Editora Sundermann, 2007. Casanova, Loudes/ Hoeber, Henning: “Vale: uma líder multinacional emergente”, In Ramsey/ Almeida (org.): A ascensão de multinacionais brasileiras. Rio de Janeiro, Elsevier; Belo Horizonte, Fundação Dom Cabral, 2010.
(2) “Baosteel abre as portas para reformulação de preços”, Valor Econômico, 26 de março, 2010.
(3) De acordo com pesquisa realizada pela fundação empresarial Dom Cabral, em 2006 as vinte maiores transnacionais brasileiras investiram US$ 56 bilhões no exterior. O Investimento Brasileiro no Exterior (IBE) é especialmente concentrado nas empresas de recursos naturais e primários, Vale e Petrobrás. Ver www.fdc.org.br.
(4) Casanova, L/ Hoeber, H.: ibid.
(5) Godeiro et.al: ibid.
(6) ibid.
(7) ibid.
(8) “Vale entra na disputa pela hidrelétrica de Belo Monte”. Estado de São Paulo, 23/02/2010.
(9) “Vale deve estimular expansão em fertilizantes”. Valor Economico, 18/01/2010.
(10) Panitch, Leo/ Gindin, Sam: Global capitalism and American Empire. Socialist Register 2004. London, Merlin Press.
(11) Lenin, V.I: O Imperialismo, fase superior do capitalismo. Centauro Editora, 3 edição. 2005 (1916).
Um momento histórico. Assim descreveram muitos dos participantes este primeiro encontro internacional. Por primeira vez, representantes de organizações, sindicatos e comunidades em lutacontra a mineradora brasileira Vale se reuniram na cidade onde se encontra seu “headquarter”. Abrimos um precedente: nunca houve tal articulação frente a uma empresa brasileira. Historicamente, são as estadunidenses ou européias que vêm explorar nossos recursos, nossa mão de obra, levar a riqueza e deixar a pobreza. São eles os imperialistas. O encontro mostrou, no entanto, que a Vale faz o mesmo. Seu diferencial é um símbolo de verde e amarelo e o apoio do Estado brasileiro. Ela se diz representante do Brasil nos lugares onde chega. Um Brasil que está crescendo, se tornando “desenvolvido”, e buscando participar das instâncias de governança global para ditar as regras no sistema internacional junto aos grandes, sem questionar ou alterar, no entanto, a hierarquia internacional do próprio sistema capitalista.
A Vale atua hoje em cerca de 30 países. Sua internacionalização tem inicio após sua consolidação do mercado interno brasileiro, onde cresceu e adquiriu bases para se internacionalizar, devido ao apoio do Estado e do povo brasileiro, que ergueu o “império Vale” com o seu trabalho. Já em 1984 ela compra parte da siderúrgica California Steel Industries, em conjunto com uma siderúrgica japonesa. No início dos anos 90, ela entra na Europa comprando parte de uma siderúrgica francesa. Mas é a partir de 2001, com a administração de Roger Agnelli, que a Vale inicia uma política agressiva de expansão internacional: em 2000 ela entra no Oriente Médio adquirindo 50% da Gulf Industrial Investment Company (empresa de capital norteamericano); 2001 e 2002 ela inicia projetos de minerais não ferrosos no Peru e no Chile; e em 2003 adquire parte de uma empresa norueguesa, criando a Rio Doce Manganese Norway (1).
A internacionalização da Vale tem dois momentos centrais, que irão determinar sua atuação dentro e fora do Brasil nos dias de hoje. Primeiro, o maior mercado consumidor de minério de ferro do mundo – a China – fecha com a Vale em 2001 um acordo de fornecimento de 6 milhões de toneladas de minério de ferro por ano, ao longo de 20 anos. As negociações entre as mineradoras mundiais e a Baosteel chinesa tornam – se referência para o preço anual do minério de ferro no mercado internacional (2). A Vale é altamente dependente do mercado mundial, sendo a China o destino de 17 de suas vendas.
Segundo, a compra da mineradora canadense Inco, em 2006, torna a Vale a maior produtora mundial de níquel, além do minério de ferro. A criação da Vale Inco tem impactos gerais na economia brasileira, tornando o Brasil um investidor internacional, e não apenas um receptor de investimentos estrangeiros (3). A compra da Inco compreendeu US$ 19 bilhões, sendo seu preço US$ 17,8 bilhões mais US$ 1,2 bilhão de dívida líquida (4). Para esta compra, ela se associou a bancos internacionais, como Credit Suisse, UBS, ABN Amro e Santander. Com isso, o endividamento da Vale aumentou para US$ 22 bilhões em 2006 (5). Este fato, juntamente com a queda relativa do preço mundial do níquel no ano de 2009, pode explicar a postura agressiva da Vale contra os trabalhadores canadenses, buscando romper com direitos adquiridos ao longo de décadas de lutas trabalhistas na antiga Inco. No entanto, os trabalhadores se recusam a arcar com os custos de um possível “mal negócio” da Vale, e resistem em um greve histórica.
A compra da Inco também significou a diminuição de sua base brasileira: de 98% dos ativos até 2006, passou a 60% (6). A companhia incorporou projetos na Indonésia e Nova Caledônia. Em 2007 ela entra no mercado de carvão, com a compra da AMCI australiana, e com o projeto da mina de Moatize em Moçambique. As atividades na África, apesar de apresentadas como um “mercado natural” para o Brasil, devido a similitudes de língua e histórica, buscam, na verdade, garantir espaços de exploração na competição com empresas chinesas com vistas ao mercado daquele país.
Nota-se que a estratégia de internacionalização da Vale está ligada ao controle de toda a cadeia produtiva, no sentido de “integração para trás” na cadeia siderúrgica, onde a empresa garante o fornecimento do produto primário. A Vale buscou “enxugar” suas operações logo após a privatização, e passou a especializar-se em minério de ferro e logística. Sua logística é utilizada a serviço do agronegócio e da siderurgia, transportando produtos do aço, soja, fertilizantes, combustíveis, entre outros (7). Ao mesmo tempo, ela busca o controle de toda a cadeia de produção, incluindo por exemplo o fornecimento de energia, entrando assim em projetos de grandes hidrelétricas, em especial no estado de Minas Gerais, mas também no norte do país, como atualmente Belo Monte (8). A sua expansão no setor de fertilizantes está também diretamente ligada à internacionalização: os projetos na Argentina, Peru, Moçambique e Canadá visam a produção de potássio e fosfato, necessário para produção de fertilizantes, que será aumentada com compra de parte das operações da Bunge pela Vale (9).
Participantes do Canadá, Moçambique, Chile, Peru, Argentina e Nova Caledônia vieram ao encontro internacional no Rio de Janeiro denunciar os problemas na atuação da Vale nos seus países. Os participantes brasileiros responderam a eles com um espelho, um reflexo, uma dupla face. A exploração dos trabalhadores, o desrespeito ao meio ambiente e aos direitos humanos mais básicos nas comunidades são padrões que a Vale vem buscando impor nos outros países, do mesmo modo que dentro do Brasil,nas localidades onde atua. Diferentemente de empresas do chamado “primeiro mundo”, a Vale não atua com um duplo padrão de comportamento, mas sim uma “corrida para baixo”. E o caso dos direitos trabalhistas no Canadá, Itabira, Congonhas, Parauapebas e Barcarena; de comunidades que lutam por indenizações justas e contra remoções forçadas, como em Moçambique e Açailândia; do uso de milícias armadas no Peru e no Rio de Janeiro; desrespeitos às populações indígenas na Nova Caledônia e no Norte do Brasil; ameaça de impactos ambientais e poluição no Chile, Argentina, Serra da Gandarela, Ourilândia do Norte e Canaã dos Carajás. Participantes internacionais expuseram uma realidade que os movimentos sociais e sindicais no Brasil conhecem na própria pele, nas próprias experiências de vida de cada pessoa presente nesta jornada de abril.
Podemos afirmar que o encontro refletiu uma dinâmica dupla do imperialismo atual: o aprofundamento do capitalismo para dentro ao mesmo tempo que sua expansão para fora. Esta é a forma com que Panitch e Gindin descrevem a fase imperialista estadunidense, a deepen of capital at home and expansion of capital abroad (10). O capitalismo brasileiro amadureceu, se aprofundou, e por sua vez se transnacionalizou. Em sua análise sobre o imperialismo, Lenin cita um discurso do político inglês Cecil Rhodes, que afirmava que o imperialismo era necessário para acalmar as massas de trabalhadores na Inglaterra. “O império é uma questão de estômago”, segundo ele era necessário ser imperialista para amansar as massas e evitar uma guerra civil (11). No Brasil, e no caso da Vale, isto se verifica de forma diferente. A expansão das empresas brasileiras para o exterior estaria de alguma forma beneficiando a classe trabalhadora no Brasil? Como os lucros feitos pelas empresas no exterior são revertidos para o país? Não há estudos claros sobre isso, mas algo é certo: as comunidades e trabalhadores são explorados dentro e fora do Brasil. Como diversas vezes repetido durante o encontro, a riqueza é privatizada, mas a pobreza e os passivos ambientais e sociais são socializados. O papel de manter as massas acalmadas é jogado especialmente pelo Estado brasileiro, com políticas sociais que levam a uma relativa melhoria financeira nas famílias mais pobres. O preço que pagamos por esta relativa melhoria de curto prazo é o silêncio frente aos problemas permanentes, que não são de hoje, e somente têm chance real de serem solucionados pela pressão e organização popular. A empresa aparenta não ter qualquer preocupação em considerar os seres humanos e a natureza, suas duas principais fontes de exploração e riqueza. A ganância pelo lucro e a truculência com a classe trabalhadora é a principal característica de sua atuação, descrita por todos os participantes do encontro.
O encontro foi mais do que um evento de três dias no Rio de Janeiro. Ele foi um processo de um ano de preparação, contatos, conversas, teleconferências, viagens, reuniões. Foi uma construção contínua. Também não foi um simples evento de longas mesas de discussão. As caravanas no Norte e em Minas Gerais deram a todos nós a vivência e convivência real entre iguais. Imagine-se um camponês peruano que desce da Van no alto de uma serra em Conceição do Mato Dentro – no morro ao lado um barulho forte e fumaça da explosão da pedreira de uma mineradora. Ele se encontra com um grupo de camponeses, pés descalços, negros, confusos e sem esperança. São remanescentes de quilombolas. Estão ameaçados de expulsão de suas terras, que pertencem a várias gerações de suas famílias. Com os olhos um no outro, um reconhecimento, e uma sensação de que há de motivar o outro à luta. O camponês de Cajamarca diz aos seus companheiros de Minas Gerais: “Somos como arboles. Vamos a morrir en pie, pero nunca de rodillas”. Em Itabira, cidade natal da Vale, enfeitada com poemas de Carlos Drummond em cada esquina, impressos em chapas de aço feitas com o minério de ferro da própria cidade. Descem da Van dois trabalhadores operários da Vale Inco no Canadá. Estão em plena luta, há 9 meses em greve pela preservação de seus direitos adquiridos através também da luta de seus avós e pais. Sentem-se em casa ao chegarem na sede do sindicato que os recebe, há café, água, biscoitos, uma estrutura confortável. Frente a frente, se reconhecem nos companheiros, trabalhadores e sindicalistas de Itabira. Pedem apoio a sua luta. Um deles diz aos colegas: “Me perguntaram aqui como estamos aguentando nove meses em greve. Eu não tinha parado para pensar. Posso dizer que não tenho outra escolha. Não posso olhar nos olhos dos meus filhos, não posso pensar em jogar para o alto, sem lutar, o que meus pais e avós conquistaram. É o mesmo que tirar o futuro de meus filhos. Antes eu era apenar um trabalhador. Agora eu sou um militante”. Muitas trocas, muitos vivências, uma sensação de estarmos a vontade com pessoas que tínhamos acabado de conhecer.
No Rio de Janeiro, tivemos dias afobados. Correria, de repente, muita gente, muito mais do que esperávamos. Tivemos a sensação de sermos grandes. O que nos une mundialmente? Quais são nossas demandas? Quais são as nossas estratégias de enfrentamento? Podemos ter estratégias comuns? Sentimentos oscilavam entre a euforia de termos conseguido realizar este encontro, a emoção de vermos a enorme representação de organizações e países, ao mesmo tempo, as dificuldades frente a uma empresa tão poderosa. E as dificuldades de conciliar diferentes expectativas e demandas. Entre objetivos políticos de longo prazo, e necessidades imediatas de populações atingidas. Entre a luta pela soberania nacional e popular, e o questionamento do modelo de desenvolvimento baseado na extração dos recursos naturais. Entre trabalhadores e sindicalistas que têm na mineração sua fonte de renda e trabalho, e comunidades e ambientalistas que lutam para impedir a entrada da mineração em seu território. Demandas pela reestatização da Vale no Brasil e estatização nos outros países, e demandas por compensação e reparação de danos ambientais e indenização a famílias removidas. Experiências com empreendimentos mineradores e siderúrgicos de muitas décadas, lutas pela mitigação dos impactos de empreendimentos recentes, e a rejeição completa à instalação da atividade mineradora e siderúrgica. Afinal, o que nos une? O que estamos fazendo juntos aqui? Muitas diferenças políticas não se iniciaram neste encontro, e portanto não foram solucionadas ali. Mas algo pareceu claro: a luta nos une. A luta por direitos e a luta pela mudança do sistema devem caminhar juntas. Dentro de cada comunidade, movimento, todas as lutas foram reconhecidas por todos como legitimas. O reconhecimento mútuo gerou o sentimento de união. Lutadores e lutadoras se sentiram unidos frente a um mesmo inimigo, uma empresa transnacional que é reflexo da atual fase do capitalismo mundial. Saímos mais unidos, muito emocionados e muito mais fortes.
∗ Ana S. Garcia é doutoranda em Relações Internacionais pela PUC-Rio, e membro do Instituto Rosa Luxemburg Stiftung.
(1) Godeiro, Nazareno/ Moura, Efrain/ Soares, Paulo/ Vieira, Valério: “Vale do Rio Doce. Nem tudo que reluz é ouro, da privatização à luta pela reestatização". São Paulo, Editora Sundermann, 2007. Casanova, Loudes/ Hoeber, Henning: “Vale: uma líder multinacional emergente”, In Ramsey/ Almeida (org.): A ascensão de multinacionais brasileiras. Rio de Janeiro, Elsevier; Belo Horizonte, Fundação Dom Cabral, 2010.
(2) “Baosteel abre as portas para reformulação de preços”, Valor Econômico, 26 de março, 2010.
(3) De acordo com pesquisa realizada pela fundação empresarial Dom Cabral, em 2006 as vinte maiores transnacionais brasileiras investiram US$ 56 bilhões no exterior. O Investimento Brasileiro no Exterior (IBE) é especialmente concentrado nas empresas de recursos naturais e primários, Vale e Petrobrás. Ver www.fdc.org.br.
(4) Casanova, L/ Hoeber, H.: ibid.
(5) Godeiro et.al: ibid.
(6) ibid.
(7) ibid.
(8) “Vale entra na disputa pela hidrelétrica de Belo Monte”. Estado de São Paulo, 23/02/2010.
(9) “Vale deve estimular expansão em fertilizantes”. Valor Economico, 18/01/2010.
(10) Panitch, Leo/ Gindin, Sam: Global capitalism and American Empire. Socialist Register 2004. London, Merlin Press.
(11) Lenin, V.I: O Imperialismo, fase superior do capitalismo. Centauro Editora, 3 edição. 2005 (1916).
Desprivatizar
Desprivatizar o Governo
Paulo Passarinho - 28/04/2010
A decisão do Banco Central não surpreendeu, apesar de revoltante.
A própria Ata da última reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central já havia deixado claro que nesta reunião de abril a taxa Selic viria a ser elevada, mais uma vez.
Há semanas, assistimos a uma torrente de informações que nos dão conta de um ritmo de crescimento da atividade econômica, em diferentes setores da indústria e do comércio, interpretado como um sinal de aquecimento da economia acima do desejável. Essa é a visão amplamente difundida como uma verdade absoluta, pelos analistas e comentaristas das grandes redes de comunicação, com o suporte de economistas afinados com a política defendida pelo próprio Banco Central.
Alerta-se que a pressão de demanda ditada por esse ritmo de crescimento acabaria por pressionar o nível de preços, produzindo pressão inflacionária. Essa pressão faria com que a projeção da inflação futura, para esse ano, estivesse fugindo do centro da meta de inflação, definido para 2010 em 4,5%.
Alegava-se, antes do anúncio da elevação da taxa básica de juros de 8,75% para 9,5% ao ano, que havia uma “ampla convergência de opiniões para o entendimento consensual sobre a necessidade da elevação da taxa de juros”.
Com tanta tecnicalidade e com tanto consenso, parece ser essa a única interpretação existente para o atual momento por que passa a economia, especialmente para a imensa massa da população, naturalmente muito distante dos detalhes de temas como esse.
Porém, esse tipo de consenso é apenas uma figura de retórica para se reforçar a ordem dominante.
Primeiramente, caberia destrinchar um pouco a visão pretensamente técnica da questão.
O atual ritmo de expansão da economia, na maior parte dos setores, procura ainda recuperar o nível de produção do momento anterior à crise. A própria pressão sobre os preços de produtos de determinados setores pode ser interpretada apenas como uma consequência temporária dessa reativação econômica, tendendo a se acomodar em relativo curto espaço de tempo. Não há nenhum dado consistente de elevação do nível de renda da população que nos permita projetar pressões indesejáveis de demanda, dado evidentemente a capacidade instalada de produção e as suas projeções de expansão.
A política monetária desenvolvida pelo Banco Central se baseia no chamado modelo de metas inflacionárias. Nesse modelo, a partir de uma determinada estimativa do produto potencial da economia, dado um ritmo projetado de expansão da economia, define-se uma faixa conveniente de variação para a estimativa de inflação futura. O objetivo da política monetária é, assim, procurar manipular os seus instrumentos, de modo a garantir que a taxa de inflação venha a se comportar dentro dos limites da faixa pré-estabelecida.
Para se aferir o ritmo da atividade da economia, assim como especialmente as expectativas inflacionárias, o Banco Central procura ouvir o próprio mercado, como forma de melhor sintonizar o manuseio dos seus instrumentos, sempre na busca de se alcançar o objetivo maior da política defendida, que é a contenção da taxa de inflação dentro dos limites desejados.
A idéia de um produto potencial da economia previamente estabelecido deve ser relativizada, em função de variáveis que são mutáveis, a partir inclusive da própria execução da política monetária. Dentre essas variáveis, destaca-se a própria taxa de juros, o preço do dinheiro, fundamental para um maior ou menor estímulo aos investimentos, motor para a expansão da capacidade de produção de qualquer economia.
Baixas taxas de juros, por exemplo, podem alterar por completo as condições de expansão da atividade econômica e o produto possível de ser atingido, em função do comportamento da taxa de investimento, que tende a reagir positivamente frente a uma reduzida taxa de juros.
Ao contrário, taxas elevadas de juros inibem o investimento, ao mesmo tempo em que pode, ao estimular a entrada de recursos externos na economia – conforme acontece na presente administração da política econômica do governo – incentivar as importações e inibir exportações, em decorrência da valorização do Real, provocada pela liquidez externa.
Mas, o que aparentemente é apenas técnica, quando examinada à luz da prática, se mostra inteiramente revestida de sentido político, onde atores muito bem definidos acabam por dar as cartas do jogo.
Quando se menciona que o Banco Central procura ouvir o próprio mercado, a referência são agentes do mercado financeiro, analistas e técnicos de instituições financeiras diretamente interessados nas decisões a serem tomadas pela autoridade monetária, que é – ou deveria sê-lo – o próprio Banco Central. A minha dúvida está relacionada a essa evidente dependência que passa a existir entre o órgão que deveria regular e fiscalizar o mercado financeiro, e os interesses das instituições justamente a serem reguladas e fiscalizadas.
Produto potencial, estimativas do comportamento de preços e da inflação projetada, assim como as expectativas em relação às taxas de juros ficam por conta e risco – e especialmente interesses – de instituições que vivem de ganhar dinheiro com as informações, e decisões, que deveriam ser de competência exclusiva e soberana do governo federal.
Em tempos onde aparentemente o Banco Central age de forma independente, a bandeira de ordem mais importante, nesse momento, muito bem poderia ser a da defesa da independência deste Banco Central, em relação às instituições que o controlam, na prática, que é o sistema privado financeiro.
A bandeira a ser levantada poderia ser a da desprivatização do Banco Central.
Contudo, se tudo isso acontece, a responsabilidade é unicamente do próprio governo.
O atual funcionamento e política do Banco Central é uma decorrência direta da opção de governabilidade adotada por Lula, antes mesmo de sua posse, e que transferiu a responsabilidade do núcleo da política econômica aos interesses dominantes do setor financeiro.
A justificativa do Banco Central é que poderemos ter uma elevação da inflação neste ano e o remédio não pode ser outro que não o aumento da taxa de juros. Mas tudo se esclarece quando lembramos que quem opina sobre “expectativas inflacionárias” são agentes do mercado financeiro, assim como quem sugere o remédio são eles mesmos: os bancos e demais instituições do “mercado”. Em suma, está tudo em casa, com o Banco Central patrocinando a festa de quem vende crédito e dinheiro.
Mas, o problema não para por aí. Nessa semana, em que mais uma vez o reajuste dos aposentados é colocado na berlinda, como uma ameaça às contas públicas, ninguém exige que o governo ou o seu banco central apontem a “fonte de recursos” para se cobrir o rombo que essa medida, de se elevar os juros, provoca no Orçamento da União.
Esta elevação da taxa Selic para 9,5%, em meio a taxas de juros baixíssimas ou até mesmo negativas pelo mundo afora, irá impactar ainda mais a pesada despesa com juros e amortizações que, apenas no ano passado, consumiu 35% dos recursos orçamentários da União.
O presidente Lula, que exigiu dos parlamentares que defendem um reajuste maior aos aposentados a fonte de recursos para o custeio do aumento de despesas que a essa medida geraria, não teve o mesmo comportamento frente à decisão do Banco Central.
Sabem por quê? Por que essa conta é paga justamente com os recursos que deveriam ser aplicados na previdência, na saúde, na educação, nos transportes públicos ou na habitação popular.
É por isso, leitor, que todos esses serviços voltados à população andam de mal a pior, com um péssimo atendimento à população.
E, por isso, a bandeira mais apropriada para o momento é a desprivatização não somente do Banco Central, mas, principalmente, do próprio governo.
Paulo Passarinho - 28/04/2010
A decisão do Banco Central não surpreendeu, apesar de revoltante.
A própria Ata da última reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central já havia deixado claro que nesta reunião de abril a taxa Selic viria a ser elevada, mais uma vez.
Há semanas, assistimos a uma torrente de informações que nos dão conta de um ritmo de crescimento da atividade econômica, em diferentes setores da indústria e do comércio, interpretado como um sinal de aquecimento da economia acima do desejável. Essa é a visão amplamente difundida como uma verdade absoluta, pelos analistas e comentaristas das grandes redes de comunicação, com o suporte de economistas afinados com a política defendida pelo próprio Banco Central.
Alerta-se que a pressão de demanda ditada por esse ritmo de crescimento acabaria por pressionar o nível de preços, produzindo pressão inflacionária. Essa pressão faria com que a projeção da inflação futura, para esse ano, estivesse fugindo do centro da meta de inflação, definido para 2010 em 4,5%.
Alegava-se, antes do anúncio da elevação da taxa básica de juros de 8,75% para 9,5% ao ano, que havia uma “ampla convergência de opiniões para o entendimento consensual sobre a necessidade da elevação da taxa de juros”.
Com tanta tecnicalidade e com tanto consenso, parece ser essa a única interpretação existente para o atual momento por que passa a economia, especialmente para a imensa massa da população, naturalmente muito distante dos detalhes de temas como esse.
Porém, esse tipo de consenso é apenas uma figura de retórica para se reforçar a ordem dominante.
Primeiramente, caberia destrinchar um pouco a visão pretensamente técnica da questão.
O atual ritmo de expansão da economia, na maior parte dos setores, procura ainda recuperar o nível de produção do momento anterior à crise. A própria pressão sobre os preços de produtos de determinados setores pode ser interpretada apenas como uma consequência temporária dessa reativação econômica, tendendo a se acomodar em relativo curto espaço de tempo. Não há nenhum dado consistente de elevação do nível de renda da população que nos permita projetar pressões indesejáveis de demanda, dado evidentemente a capacidade instalada de produção e as suas projeções de expansão.
A política monetária desenvolvida pelo Banco Central se baseia no chamado modelo de metas inflacionárias. Nesse modelo, a partir de uma determinada estimativa do produto potencial da economia, dado um ritmo projetado de expansão da economia, define-se uma faixa conveniente de variação para a estimativa de inflação futura. O objetivo da política monetária é, assim, procurar manipular os seus instrumentos, de modo a garantir que a taxa de inflação venha a se comportar dentro dos limites da faixa pré-estabelecida.
Para se aferir o ritmo da atividade da economia, assim como especialmente as expectativas inflacionárias, o Banco Central procura ouvir o próprio mercado, como forma de melhor sintonizar o manuseio dos seus instrumentos, sempre na busca de se alcançar o objetivo maior da política defendida, que é a contenção da taxa de inflação dentro dos limites desejados.
A idéia de um produto potencial da economia previamente estabelecido deve ser relativizada, em função de variáveis que são mutáveis, a partir inclusive da própria execução da política monetária. Dentre essas variáveis, destaca-se a própria taxa de juros, o preço do dinheiro, fundamental para um maior ou menor estímulo aos investimentos, motor para a expansão da capacidade de produção de qualquer economia.
Baixas taxas de juros, por exemplo, podem alterar por completo as condições de expansão da atividade econômica e o produto possível de ser atingido, em função do comportamento da taxa de investimento, que tende a reagir positivamente frente a uma reduzida taxa de juros.
Ao contrário, taxas elevadas de juros inibem o investimento, ao mesmo tempo em que pode, ao estimular a entrada de recursos externos na economia – conforme acontece na presente administração da política econômica do governo – incentivar as importações e inibir exportações, em decorrência da valorização do Real, provocada pela liquidez externa.
Mas, o que aparentemente é apenas técnica, quando examinada à luz da prática, se mostra inteiramente revestida de sentido político, onde atores muito bem definidos acabam por dar as cartas do jogo.
Quando se menciona que o Banco Central procura ouvir o próprio mercado, a referência são agentes do mercado financeiro, analistas e técnicos de instituições financeiras diretamente interessados nas decisões a serem tomadas pela autoridade monetária, que é – ou deveria sê-lo – o próprio Banco Central. A minha dúvida está relacionada a essa evidente dependência que passa a existir entre o órgão que deveria regular e fiscalizar o mercado financeiro, e os interesses das instituições justamente a serem reguladas e fiscalizadas.
Produto potencial, estimativas do comportamento de preços e da inflação projetada, assim como as expectativas em relação às taxas de juros ficam por conta e risco – e especialmente interesses – de instituições que vivem de ganhar dinheiro com as informações, e decisões, que deveriam ser de competência exclusiva e soberana do governo federal.
Em tempos onde aparentemente o Banco Central age de forma independente, a bandeira de ordem mais importante, nesse momento, muito bem poderia ser a da defesa da independência deste Banco Central, em relação às instituições que o controlam, na prática, que é o sistema privado financeiro.
A bandeira a ser levantada poderia ser a da desprivatização do Banco Central.
Contudo, se tudo isso acontece, a responsabilidade é unicamente do próprio governo.
O atual funcionamento e política do Banco Central é uma decorrência direta da opção de governabilidade adotada por Lula, antes mesmo de sua posse, e que transferiu a responsabilidade do núcleo da política econômica aos interesses dominantes do setor financeiro.
A justificativa do Banco Central é que poderemos ter uma elevação da inflação neste ano e o remédio não pode ser outro que não o aumento da taxa de juros. Mas tudo se esclarece quando lembramos que quem opina sobre “expectativas inflacionárias” são agentes do mercado financeiro, assim como quem sugere o remédio são eles mesmos: os bancos e demais instituições do “mercado”. Em suma, está tudo em casa, com o Banco Central patrocinando a festa de quem vende crédito e dinheiro.
Mas, o problema não para por aí. Nessa semana, em que mais uma vez o reajuste dos aposentados é colocado na berlinda, como uma ameaça às contas públicas, ninguém exige que o governo ou o seu banco central apontem a “fonte de recursos” para se cobrir o rombo que essa medida, de se elevar os juros, provoca no Orçamento da União.
Esta elevação da taxa Selic para 9,5%, em meio a taxas de juros baixíssimas ou até mesmo negativas pelo mundo afora, irá impactar ainda mais a pesada despesa com juros e amortizações que, apenas no ano passado, consumiu 35% dos recursos orçamentários da União.
O presidente Lula, que exigiu dos parlamentares que defendem um reajuste maior aos aposentados a fonte de recursos para o custeio do aumento de despesas que a essa medida geraria, não teve o mesmo comportamento frente à decisão do Banco Central.
Sabem por quê? Por que essa conta é paga justamente com os recursos que deveriam ser aplicados na previdência, na saúde, na educação, nos transportes públicos ou na habitação popular.
É por isso, leitor, que todos esses serviços voltados à população andam de mal a pior, com um péssimo atendimento à população.
E, por isso, a bandeira mais apropriada para o momento é a desprivatização não somente do Banco Central, mas, principalmente, do próprio governo.
Degradação
Emblemas da Degradação Leo Lince - 29/04/2010
A notícia, quando saiu nos jornais em meados de março, provocou o impacto de uma pluma caindo sobre o carpete. Ninguém disse nada, nenhum dos analistas usuais de nossa vida política teceu qualquer comentário. Logo, página virada, a gravidade do fato noticiado ganhou a consistência fantasmagórica do inaveriguável. E agora lateja sob o manto do silêncio.
No fato em si não há nada demais: o deputado federal José Eduardo Cardoso, do PT paulistano, anunciou que não vai concorrer nas eleições deste ano. Desistiu, cansou, está desiludido. O motivo da desistência é o que confere gravidade ao gesto e onde reside o x do problema.
Não se trata de crise pessoal, doença ou infelicidades do gênero. Pelo contrário, o deputado goza de boa saúde e, segundo a crônica social, até namorada ele arranjou nos labirintos rarefeitos do Congresso Nacional. Também não perdeu apreço pelo trabalho parlamentar, que considera importantíssimo. Tampouco se declara decepcionado (talvez devesse) com seu partido e menos ainda com o governo Lula, onde, dizem as más línguas, postulou vaga no ministério.
A razão da desistência está centrada em uma única questão, definida com todas as letras na carta enviada aos seus colegas de partido. Lá diz que: “no sistema eleitoral atual, o sucesso de uma campanha depende mais dos recursos financeiros do que das idéias definidas pelo candidato”. Mais: “são os recursos financeiros cada vez mais que definem o sucesso de uma campanha...”.
Diagnóstico terrível, além de verdadeiro. Basta ver a série eleitoral. Os chamados “candidatos de opinião”, que mobilizam militância voluntária e cidadã na defesa de idéias, causas e projetos, estão perdendo espaço para os que operam negócios na política. Cada eleição bate o recorde anterior: até a próxima ela será a mais cara da nossa história. O padrão dominante da política pede chefes de executivos que intermedeiam negócios e bancadas das grandes corporações nos parlamentos.
A notícia da desistência se torna mais grave ainda por ser petista o desiludido. Está no segundo mandato federal, foi vereador destacado na maior cidade da America Latina. Não faz muito, disputou com boa votação a presidência do seu partido, onde ocupa a Secretaria Geral, o segundo cargo em importância no Diretório Nacional. O PT, como se sabe, polarizou e ganhou em campanhas caríssimas as duas últimas eleições presidenciais, recebe a parte do leão do fundo partidário e, por razões obvias, é o partido melhor aquinhoado pelo seleto grupo de financiadores privados de campanha.
O Secretário Geral de tal partido, localizado no vértice da ordem dominante, declara que só se candidataria se houvesse “uma radical reforma no sistema político”. Reforma, aliás, em favor da qual o seu partido não moveu uma palha sequer. E, mais grave, acrescenta que: “o sistema político brasileiro traz no seu bojo o vírus da procriação da corrupção e das práticas não republicanas”. Desiste de ser candidato, mas segue sorridente no ajuntamento dos beneficiários da supremacia plena da pequena política.
O cidadão comum, pálido de espanto, se posta diante de tal quadro de difícil compreensão. Os sinais de alerta, pequenos avisos, lhe chegam como cartas embaralhadas. O caso em pauta é mais um disparo telegráfico, um condensado que espelha o processo mais amplo de degradação do esquema político dominante. O diagnóstico terrível, o gesto da desistência e o torpor do conformismo, embrulhados no manto de silêncio, são, sem dúvida, emblemas da degradação.
Rio, abril de 2010.
Léo Lince
A notícia, quando saiu nos jornais em meados de março, provocou o impacto de uma pluma caindo sobre o carpete. Ninguém disse nada, nenhum dos analistas usuais de nossa vida política teceu qualquer comentário. Logo, página virada, a gravidade do fato noticiado ganhou a consistência fantasmagórica do inaveriguável. E agora lateja sob o manto do silêncio.
No fato em si não há nada demais: o deputado federal José Eduardo Cardoso, do PT paulistano, anunciou que não vai concorrer nas eleições deste ano. Desistiu, cansou, está desiludido. O motivo da desistência é o que confere gravidade ao gesto e onde reside o x do problema.
Não se trata de crise pessoal, doença ou infelicidades do gênero. Pelo contrário, o deputado goza de boa saúde e, segundo a crônica social, até namorada ele arranjou nos labirintos rarefeitos do Congresso Nacional. Também não perdeu apreço pelo trabalho parlamentar, que considera importantíssimo. Tampouco se declara decepcionado (talvez devesse) com seu partido e menos ainda com o governo Lula, onde, dizem as más línguas, postulou vaga no ministério.
A razão da desistência está centrada em uma única questão, definida com todas as letras na carta enviada aos seus colegas de partido. Lá diz que: “no sistema eleitoral atual, o sucesso de uma campanha depende mais dos recursos financeiros do que das idéias definidas pelo candidato”. Mais: “são os recursos financeiros cada vez mais que definem o sucesso de uma campanha...”.
Diagnóstico terrível, além de verdadeiro. Basta ver a série eleitoral. Os chamados “candidatos de opinião”, que mobilizam militância voluntária e cidadã na defesa de idéias, causas e projetos, estão perdendo espaço para os que operam negócios na política. Cada eleição bate o recorde anterior: até a próxima ela será a mais cara da nossa história. O padrão dominante da política pede chefes de executivos que intermedeiam negócios e bancadas das grandes corporações nos parlamentos.
A notícia da desistência se torna mais grave ainda por ser petista o desiludido. Está no segundo mandato federal, foi vereador destacado na maior cidade da America Latina. Não faz muito, disputou com boa votação a presidência do seu partido, onde ocupa a Secretaria Geral, o segundo cargo em importância no Diretório Nacional. O PT, como se sabe, polarizou e ganhou em campanhas caríssimas as duas últimas eleições presidenciais, recebe a parte do leão do fundo partidário e, por razões obvias, é o partido melhor aquinhoado pelo seleto grupo de financiadores privados de campanha.
O Secretário Geral de tal partido, localizado no vértice da ordem dominante, declara que só se candidataria se houvesse “uma radical reforma no sistema político”. Reforma, aliás, em favor da qual o seu partido não moveu uma palha sequer. E, mais grave, acrescenta que: “o sistema político brasileiro traz no seu bojo o vírus da procriação da corrupção e das práticas não republicanas”. Desiste de ser candidato, mas segue sorridente no ajuntamento dos beneficiários da supremacia plena da pequena política.
O cidadão comum, pálido de espanto, se posta diante de tal quadro de difícil compreensão. Os sinais de alerta, pequenos avisos, lhe chegam como cartas embaralhadas. O caso em pauta é mais um disparo telegráfico, um condensado que espelha o processo mais amplo de degradação do esquema político dominante. O diagnóstico terrível, o gesto da desistência e o torpor do conformismo, embrulhados no manto de silêncio, são, sem dúvida, emblemas da degradação.
Rio, abril de 2010.
Léo Lince
Desaquecimento
Desaquecimento Humano
10 de dezembro de 2009 por Chico Alencar
Estudiosos da UFRJ, USP, Unicamp e Embrapa alertam: mantidas as condições do atual modelo econômico, até o fim deste século a Amazônia sofrerá perda de 40% da cobertura florestal da área sul-sudeste-leste, que se transformará em savana. O rio Amazonas terá redução da sua vazão em até 30%, o rio Paraná em 53% e o rio São Francisco minguará 70%. No Nordeste, cuja temperatura aumentará até 8ºC, é prevista uma diminuição das chuvas entre 2 e 2,5 milímetros por dia até 2100! Isso afetará todo o país – lar de um quinto das espécies do planeta, espaço da maior biodiversidade da Terra.
Na contramão deste aquecimento, que só não acontecerá se mudarmos radicalmente o modelo de organização produtiva hoje vigente, há um esfriamento de valores constitutivos do ser humano.
A crise ambiental está na ordem do dia e nunca houve tanto debate sobre a doença do planeta. Para ser elevado, porém, ele precisa estar vinculado a visão de mundo, aos destinos da Humanidade, ao tipo de ser humano e de sociedade que até aqui forjamos e que aspiramos. Comprometer quem analisa.
É urgente questionar os estímulos da vida cotidiana no mundo urbano-capitalista. Somos permanentemente seduzidos pelo individualismo consumista, pela cultura da vaidade e da notoriedade, pela lógica do efêmero e da novidade, pela ânsia da compensação financeira. Cada um precisa ser um “vencedor” dentro do novo código da alma, que é o do “dize-me o que compras que dir-te-ei quem és”. Afogamo-nos num poluído mar de necessidades artificiais.
Há um ser humano padrão constituído pela negação da esfera pública da existência e da política. Esta é, cada vez mais, atividade tecnificada, previsível, programada, sem dinamismo, prisioneira do ambiente de negócios e, nas campanhas das cifras milionárias. Não magnetiza, não atrai, não fascina e não alimenta os desejos da pessoa comum, do “homo-consumericus”. “Telemáquinas criadoras do consenso”, na feliz definição de Joel Rufino dos Santos, preenchem o vazio do presente e do futuro. O grande ideólogo da atualidade, é a publicidade que reforça a ilusão do ter.
Neste quadro dramático, cabe reiterar a urgência de uma nova sociedade, tópica e utópica, e sem divórcio entre valores idealizados e prática concreta, conjuntural. É preciso forjar novos paradigmas de pensamento, promovendo a “descolonização do imaginário”, aposentando dogmas. Marx e Lênin, com suas formulações que seguem nos auxiliando para a análise da sociedade de classes, viveram num tempo em que inexistiam a energia atômica, a televisão, a indústria cultural, os sindicatos de massa, a matéria plástica, o computador… O proletariado de seu tempo, e mesmo o de meio século atrás, não é igual ao de agora.
Os setores mobilizáveis para as transformações sociais, na perspectiva de uma sociedade igualitária, são hoje mais amplos e diversos, por um lado. E mais dominados, por outro, pelas sutilezas da exploração, pelo vigor simbólico das forças da alienação. A indicação ao conformismo é eletrônica e massiva: neofatalismo. A imoralidade permanente do Capital reside na exploração e alienação do trabalho, na reprodução da desigualdade (sob a farsa da “igualdade de competição”), na mercantilização de tudo, na chamada “ética das trocas pagas”, na corrupção sistêmica - segundo a Transparência Brasil, 70% das empresas brasileiras gastam até 3% do seu faturamento anual com propinas.
Que forças sociais e indivíduos querem, de fato, buscar novos rumos para a Humanidade?
10 de dezembro de 2009 por Chico Alencar
Estudiosos da UFRJ, USP, Unicamp e Embrapa alertam: mantidas as condições do atual modelo econômico, até o fim deste século a Amazônia sofrerá perda de 40% da cobertura florestal da área sul-sudeste-leste, que se transformará em savana. O rio Amazonas terá redução da sua vazão em até 30%, o rio Paraná em 53% e o rio São Francisco minguará 70%. No Nordeste, cuja temperatura aumentará até 8ºC, é prevista uma diminuição das chuvas entre 2 e 2,5 milímetros por dia até 2100! Isso afetará todo o país – lar de um quinto das espécies do planeta, espaço da maior biodiversidade da Terra.
Na contramão deste aquecimento, que só não acontecerá se mudarmos radicalmente o modelo de organização produtiva hoje vigente, há um esfriamento de valores constitutivos do ser humano.
A crise ambiental está na ordem do dia e nunca houve tanto debate sobre a doença do planeta. Para ser elevado, porém, ele precisa estar vinculado a visão de mundo, aos destinos da Humanidade, ao tipo de ser humano e de sociedade que até aqui forjamos e que aspiramos. Comprometer quem analisa.
É urgente questionar os estímulos da vida cotidiana no mundo urbano-capitalista. Somos permanentemente seduzidos pelo individualismo consumista, pela cultura da vaidade e da notoriedade, pela lógica do efêmero e da novidade, pela ânsia da compensação financeira. Cada um precisa ser um “vencedor” dentro do novo código da alma, que é o do “dize-me o que compras que dir-te-ei quem és”. Afogamo-nos num poluído mar de necessidades artificiais.
Há um ser humano padrão constituído pela negação da esfera pública da existência e da política. Esta é, cada vez mais, atividade tecnificada, previsível, programada, sem dinamismo, prisioneira do ambiente de negócios e, nas campanhas das cifras milionárias. Não magnetiza, não atrai, não fascina e não alimenta os desejos da pessoa comum, do “homo-consumericus”. “Telemáquinas criadoras do consenso”, na feliz definição de Joel Rufino dos Santos, preenchem o vazio do presente e do futuro. O grande ideólogo da atualidade, é a publicidade que reforça a ilusão do ter.
Neste quadro dramático, cabe reiterar a urgência de uma nova sociedade, tópica e utópica, e sem divórcio entre valores idealizados e prática concreta, conjuntural. É preciso forjar novos paradigmas de pensamento, promovendo a “descolonização do imaginário”, aposentando dogmas. Marx e Lênin, com suas formulações que seguem nos auxiliando para a análise da sociedade de classes, viveram num tempo em que inexistiam a energia atômica, a televisão, a indústria cultural, os sindicatos de massa, a matéria plástica, o computador… O proletariado de seu tempo, e mesmo o de meio século atrás, não é igual ao de agora.
Os setores mobilizáveis para as transformações sociais, na perspectiva de uma sociedade igualitária, são hoje mais amplos e diversos, por um lado. E mais dominados, por outro, pelas sutilezas da exploração, pelo vigor simbólico das forças da alienação. A indicação ao conformismo é eletrônica e massiva: neofatalismo. A imoralidade permanente do Capital reside na exploração e alienação do trabalho, na reprodução da desigualdade (sob a farsa da “igualdade de competição”), na mercantilização de tudo, na chamada “ética das trocas pagas”, na corrupção sistêmica - segundo a Transparência Brasil, 70% das empresas brasileiras gastam até 3% do seu faturamento anual com propinas.
Que forças sociais e indivíduos querem, de fato, buscar novos rumos para a Humanidade?
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