O câncer de próstata é o tipo de câncer mais prevalente em homens com mais de 50 anos.
No passado, o diagnóstico costumava ser feito quando o tumor já invadia órgãos vizinhos ou formava metástases ósseas. A introdução do PSA e do toque retal rotineiro, nos anos 1990, permitiu identificar lesões em fases precoces e diminuir a probabilidade de morrer por complicações da doença.
O tratamento desses tumores iniciais através da cirurgia ou radioterapia, no entanto, está associado a complicações intestinais, urinárias e da função sexual, que podem comprometer a qualidade de vida.
Enquanto alguns tumores apresentam comportamento agressivo, outros são tão indolentes que dificilmente chegarão a provocar complicações nos pacientes mais idosos, mesmo que não sejam tratados. Nestes casos, o simples acompanhamento clínico e laboratorial pode ser a opção mais adequada.
Depois de rever os estudos publicados de 1950 a junho de 2009, a American Cancer Society acaba de publicar um novo consenso sobre as indicações para a realização dos exames preventivos: PSA e toque retal.
Atualizados pela primeira vez desde 2001, os principais pontos das novas normas são os seguintes:
1) Os exames preventivos devem ser oferecidos a todos os homens com mais de 50 anos que tenham uma expectativa de viver pelo menos 10 anos. Caso contrário, o benefício de um possível tratamento não compensará as complicações associadas a ele;
2) A idade para iniciar os exames depende do risco de apresentar a doença:
n Aos 50 anos, nos homens de risco igual ao da média;
n Aos 45 anos, naqueles que correm risco mais alto: descendentes de negros ou homens com parentes de primeiro grau que receberam o diagnóstico de câncer de próstata antes dos 65 anos;
n Aos 40 anos, nos casos de risco muito alto: diversos familiares com câncer de próstata diagnosticado antes dos 65 anos.
3) Nos casos em que os níveis de PSA estão abaixo de 2,5 ng/mL, o exame pode ser repetido apenas a cada 2 anos (ao contrário da repetição anual recomendada anteriormente);
4) Quando os níveis estiverem acima desse valor, o exame deve ser anual;
5) Quando o PSA está entre 2,5 e 4,0 ng/mL a conduta deve ser individualizada:
n Indicar biópsia quando houver risco mais alto: ascendência negra, história familiar de câncer de próstata, idade mais avançada e toque retal alterado;
n Biópsia anterior com resultado negativo reduz, mas não elimina, a possibilidade da doença.
6) PSA e toque retal estão associados a resultados falso-negativos e falso-positivos. Os falso-negativos retardam o diagnóstico. Os falso-positivos, encontrados em 23% a 42% dos casos, aumentam os custos, os riscos de procedimentos desnecessários e deixam os pacientes angustiados;
7) Os efeitos adversos da prostatectomia radical incluem complicações cirúrgicas da ordem de 22% nos primeiros 30 dias de pós-operatório, sangramentos, morte em 0,1% a 0,2% dos casos, estreitamentos da uretra e da bexiga em 5% a 14%, incontinência urinária em 12% a 16% e disfunção sexual em 19% a 27%;
8) Os efeitos adversos da radioterapia incluem toxicidade aguda (digestiva e urinária) em 50% dos doentes tratados e toxicidade tardia (digestiva, urinária e disfunção sexual);
9) A estratégia de apenas observar o crescimento nos casos de tumores indolentes pode levar à obstrução das vias urinárias, mas seu impacto na qualidade de vida é desconhecido;
10) O tradicional valor de 4,0 ng/mL para o PSA ainda é considerado como o limite a partir do qual deve ser indicada a biópsia de próstata, apesar de não haver segurança de que esse seja o ponto de corte ideal;
11) Embora o risco de câncer de próstata guarde relação com os valores do PSA, não é possível ter certeza absoluta de que uma biópsia não pudesse detectar a presença de um tumor em fase inicial de crescimento mesmo quando o PSA está abaixo de 2,5 ng/mL.
Dr. Drauzio Varella
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Longevidade
A expectativa de vida durante o século 20 experimentou um salto quantitativo jamais vivido nos 5 milhões de anos da espécie humana. Em 1900, para quem nascia na Europa mais desenvolvida, ela andava ao redor do 40 anos; quando o século terminou, havia chegado aos 80 anos em diversos países. O salto espetacular atiça a esperança de repetirmos o feito nos próximos cem anos. Quem não gostaria de chegar saudável aos 120 ou 150 anos?
A duração da vida é tecnicamente definida pela idade atingida pelo indivíduo no dia da morte. Para grandes populações heterogêneas, os demógrafos calculam a expectativa de vida com base em tabelas que consideram os valores médios de duração da vida dos indivíduos.
Estatisticamente, à medida que a expectativa de vida, ao nascer, cresce numa população, ela se torna menos sensível a variações nos índices de mortalidade. Assim, num país com expectativa de vida de 20 anos, um aumento de longevidade para 80 anos em 10% da população puxaria a média mais para cima, do quem em outro cuja expectativa inicial fosse de 70 anos.
Esse fenômeno é conhecido com o nome de entropia das tabelas de vida. Para ilustrá-lo, a seguinte situação costuma ser citada: as mulheres francesas nascidas no início do século 20 apresentavam expectativa de vida ao redor de 50 anos. Para aumentar-lhes essa expectativa média em mais 365 dias, foi preciso reduzir a mortalidade da população feminina em 4,1% a cada ano de vida. Em contraste, para aumentar mais um ano na expectativa atual de cerca de 80 anos, seria preciso conseguir uma redução de 9,1% por ano de vida.
Ainda usando o caso das francesas, mulheres que em 1987 ultrapassaram a barreira dos 80 anos de expectativa de vida, a partir dessa data, seria necessário reduzir-lhes a mortalidade em 26%, ano por ano de vida, para chegarmos à expectativa de 85 anos.
Nos Estados Unidos, para essa expectativa atingir os mesmos 85 anos a mortalidade atual precisaria cair pela metade, em cada ano de vida.
Até entre as mulheres japonesas, cuja expectativa de 83 anos é a mais alta da espécie humana, a queda de mortalidade anual para ser atingida a meta dos 85 anos seria alta: 20%.
A diminuição dos índices de mortalidade entre as mulheres americanas possibilitou um aumento da expectativa de vida de 49 anos em 1900, para 79 anos em 2000. Se declínio idêntico de mortalidade puder ser repetido neste século 21, a expectativa aumentará para 89,1 anos. E, se no século 22 ele for novamente repetido, o aumento será de apenas mais 6,1 anos.
A persistirem entre os mais velhos índices de mortalidade semelhantes aos de hoje, a média de 100 anos de vida só será alcançada quando nenhum dos filhos dos leitores desta coluna estiver presente. A expectativa de vida dos franceses (homens e mulheres) atingirá meros 85 anos em 2033, a dos japoneses em 2035, e a dos americanos em 2182.
Na verdade, reduções de mortalidade na população abaixo de 50 anos da ordem daquelas ocorridas no século passado não serão mais possíveis em países desenvolvidos, porque as infecções e doenças parasitárias não representam mais causas de morte em massa. Isso quer dizer que se pretendermos aumentar significativamente a longevidade, seremos forçados a obter grandes quedas de mortalidade na população com mais de 50 anos.
Será preciso acrescentar décadas de vida aos que chegam aos setenta anos, o que significa convencer a imensa maioria a não fumar, beber pouco, praticar atividade física diária, comer com moderação. Significa, também, aprendermos a prevenir todas doenças cardiovasculares, encontrarmos a cura do câncer, das doenças reumatológicas e, a tarefa mais difícil, evitarmos a deterioração neurológica que aflige os que insistem em permanecer vivos. Teremos muito trabalho pela frente.
Dr.Drauzio Varella
A duração da vida é tecnicamente definida pela idade atingida pelo indivíduo no dia da morte. Para grandes populações heterogêneas, os demógrafos calculam a expectativa de vida com base em tabelas que consideram os valores médios de duração da vida dos indivíduos.
Estatisticamente, à medida que a expectativa de vida, ao nascer, cresce numa população, ela se torna menos sensível a variações nos índices de mortalidade. Assim, num país com expectativa de vida de 20 anos, um aumento de longevidade para 80 anos em 10% da população puxaria a média mais para cima, do quem em outro cuja expectativa inicial fosse de 70 anos.
Esse fenômeno é conhecido com o nome de entropia das tabelas de vida. Para ilustrá-lo, a seguinte situação costuma ser citada: as mulheres francesas nascidas no início do século 20 apresentavam expectativa de vida ao redor de 50 anos. Para aumentar-lhes essa expectativa média em mais 365 dias, foi preciso reduzir a mortalidade da população feminina em 4,1% a cada ano de vida. Em contraste, para aumentar mais um ano na expectativa atual de cerca de 80 anos, seria preciso conseguir uma redução de 9,1% por ano de vida.
Ainda usando o caso das francesas, mulheres que em 1987 ultrapassaram a barreira dos 80 anos de expectativa de vida, a partir dessa data, seria necessário reduzir-lhes a mortalidade em 26%, ano por ano de vida, para chegarmos à expectativa de 85 anos.
Nos Estados Unidos, para essa expectativa atingir os mesmos 85 anos a mortalidade atual precisaria cair pela metade, em cada ano de vida.
Até entre as mulheres japonesas, cuja expectativa de 83 anos é a mais alta da espécie humana, a queda de mortalidade anual para ser atingida a meta dos 85 anos seria alta: 20%.
A diminuição dos índices de mortalidade entre as mulheres americanas possibilitou um aumento da expectativa de vida de 49 anos em 1900, para 79 anos em 2000. Se declínio idêntico de mortalidade puder ser repetido neste século 21, a expectativa aumentará para 89,1 anos. E, se no século 22 ele for novamente repetido, o aumento será de apenas mais 6,1 anos.
A persistirem entre os mais velhos índices de mortalidade semelhantes aos de hoje, a média de 100 anos de vida só será alcançada quando nenhum dos filhos dos leitores desta coluna estiver presente. A expectativa de vida dos franceses (homens e mulheres) atingirá meros 85 anos em 2033, a dos japoneses em 2035, e a dos americanos em 2182.
Na verdade, reduções de mortalidade na população abaixo de 50 anos da ordem daquelas ocorridas no século passado não serão mais possíveis em países desenvolvidos, porque as infecções e doenças parasitárias não representam mais causas de morte em massa. Isso quer dizer que se pretendermos aumentar significativamente a longevidade, seremos forçados a obter grandes quedas de mortalidade na população com mais de 50 anos.
Será preciso acrescentar décadas de vida aos que chegam aos setenta anos, o que significa convencer a imensa maioria a não fumar, beber pouco, praticar atividade física diária, comer com moderação. Significa, também, aprendermos a prevenir todas doenças cardiovasculares, encontrarmos a cura do câncer, das doenças reumatológicas e, a tarefa mais difícil, evitarmos a deterioração neurológica que aflige os que insistem em permanecer vivos. Teremos muito trabalho pela frente.
Dr.Drauzio Varella
Fumantes
Fumar em espaços fechados é um atentado à saúde de quem está por perto. Permitir que fumantes dispersem partículas tóxicas no ar que outras pessoas respiram é próprio de países que desprezam a vida humana.
Antes que você, leitor, diga que sou moralista e preconceituoso, apresso-me em confessar que fui dependente de nicotina por 19 malfadados anos, durante os quais fumei em ambientes com mulheres grávidas, crianças e senhoras de idade. Se remorso matasse, não estaria aqui este que vos escreve.
A meu favor, posso alegar apenas a ignorância em que éramos mantidos naquele tempo: não sabíamos quanto o cigarro nos prejudicava nem fazíamos idéia dos malefícios causados a terceiros.
Existiam indícios, é fato, mas os fabricantes investiam fortunas em propaganda para desqualificá-los. Essa gente praticou (e continua praticando) o crime mais repugnante da história do capitalismo.
Nos últimos 20 anos, entretanto, as evidências científicas se tornaram tão contundentes que ficou impossível negar o óbvio: fumantes passivos são pessoas que fumam. Logo, estão sujeitas às mesmas doenças que encurtam a vida dos dependentes de nicotina.
Acaba de ser publicado no "The New England Journal of Medicine", a revista médica de maior circulação, um estudo escocês que ilustra o impacto da proibição do cigarro em ambientes fechados.
Em 2005, foi decretado na Escócia o "The Smoking, Health and Social Care Act" (ato para cuidar da saúde de fumantes), que baniu o cigarro de todos os espaços públicos e locais de trabalho, a partir de março de 2006.
Dez meses antes de a lei entrar em vigor, pesquisadores da Universidade de Glasgow passaram a coletar dados sobre o número de pessoas internadas com doença coronária aguda, em nove hospitais, responsáveis pelo atendimento de 63% dos casos existentes no país. Os resultados foram comparados com aqueles obtidos nos dez meses seguintes ao início da proibição.
Por meio de entrevistas, os pacientes foram divididos em três grupos: fumantes, ex-fumantes e não-fumantes. Para confirmar, todos foram submetidos a um exame para determinar a presença de cotinina (um dos metabólicos da nicotina) na circulação.
Nos dez meses que antecederam a vigência da lei, foram internados 3.235 pacientes com quadros coronarianos agudos. Nos dez meses seguintes à proibição, esse número caiu para 2.684. Ou seja, 551 casos a menos; redução de 17%.
Houve queda em todos os grupos: 14% nos fumantes, 19% nos ex-fumantes e 21% nos não-fumantes, a diminuição mais acentuada.
Os autores compararam esses dados com aqueles obtidos na Inglaterra, antes da lei que introduziu proibição semelhante, 17 meses mais tarde (julho de 2007).
No mesmo período em que os escoceses experimentaram os 17% de redução nas internações por doença coronariana aguda, na Inglaterra a queda foi de somente 4%.
Duas semanas depois da vigência da lei, o número de fumantes passivos nos bares escoceses caiu 86%. As concentrações de cotinina na população adulta do país diminuíram 42%, resultado próximo dos 47% obtidos em Nova York, depois da entrada em vigor de lei semelhante.
Embora o estudo escocês tenha sido o mais completo até hoje publicado, está longe de ser a primeira demonstração dos benefícios da proibição do fumo em espaços comuns.
Em 2004, entre os 68 mil habitantes da cidade norte-americana de Helena, o número de internações por infarto do miocárdio diminuiu 40%. Entre os 148 mil habitantes de Pueblo, no Colorado, a queda foi de 15%. Nos 220 mil de Saskatoon, no Canadá, 13%.
Em Roma, cidade com 2,7 milhões de habitantes, o número de casos caiu 8% naqueles com mais de 65 anos, e 11% na população abaixo dessa idade.
Todos os estudos demonstram que legislações restritivas ao fumo em espaços públicos não só reduzem o número de fumantes passivos como fazem cair os níveis de cotinina no sangue dos próprios fumantes.
Embora por ignorância, má-fé ou ganância exista quem se oponha a elas, não há mais dúvida de que leis desse tipo beneficiam indistintamente crianças e adultos, jovens e velhos, quem fuma e quem não o faz.
Se o Brasil adotasse leis como as dos países norte-americanos e europeus, quanto sofrimento nós evitaríamos?
Até quando faremos parte do grupo de países atrasados, que dá ao dependente de nicotina o direito de jogar a fumaça de seu cigarro para dentro dos pulmões dos outros?
Dr.Drauzio Varella
Antes que você, leitor, diga que sou moralista e preconceituoso, apresso-me em confessar que fui dependente de nicotina por 19 malfadados anos, durante os quais fumei em ambientes com mulheres grávidas, crianças e senhoras de idade. Se remorso matasse, não estaria aqui este que vos escreve.
A meu favor, posso alegar apenas a ignorância em que éramos mantidos naquele tempo: não sabíamos quanto o cigarro nos prejudicava nem fazíamos idéia dos malefícios causados a terceiros.
Existiam indícios, é fato, mas os fabricantes investiam fortunas em propaganda para desqualificá-los. Essa gente praticou (e continua praticando) o crime mais repugnante da história do capitalismo.
Nos últimos 20 anos, entretanto, as evidências científicas se tornaram tão contundentes que ficou impossível negar o óbvio: fumantes passivos são pessoas que fumam. Logo, estão sujeitas às mesmas doenças que encurtam a vida dos dependentes de nicotina.
Acaba de ser publicado no "The New England Journal of Medicine", a revista médica de maior circulação, um estudo escocês que ilustra o impacto da proibição do cigarro em ambientes fechados.
Em 2005, foi decretado na Escócia o "The Smoking, Health and Social Care Act" (ato para cuidar da saúde de fumantes), que baniu o cigarro de todos os espaços públicos e locais de trabalho, a partir de março de 2006.
Dez meses antes de a lei entrar em vigor, pesquisadores da Universidade de Glasgow passaram a coletar dados sobre o número de pessoas internadas com doença coronária aguda, em nove hospitais, responsáveis pelo atendimento de 63% dos casos existentes no país. Os resultados foram comparados com aqueles obtidos nos dez meses seguintes ao início da proibição.
Por meio de entrevistas, os pacientes foram divididos em três grupos: fumantes, ex-fumantes e não-fumantes. Para confirmar, todos foram submetidos a um exame para determinar a presença de cotinina (um dos metabólicos da nicotina) na circulação.
Nos dez meses que antecederam a vigência da lei, foram internados 3.235 pacientes com quadros coronarianos agudos. Nos dez meses seguintes à proibição, esse número caiu para 2.684. Ou seja, 551 casos a menos; redução de 17%.
Houve queda em todos os grupos: 14% nos fumantes, 19% nos ex-fumantes e 21% nos não-fumantes, a diminuição mais acentuada.
Os autores compararam esses dados com aqueles obtidos na Inglaterra, antes da lei que introduziu proibição semelhante, 17 meses mais tarde (julho de 2007).
No mesmo período em que os escoceses experimentaram os 17% de redução nas internações por doença coronariana aguda, na Inglaterra a queda foi de somente 4%.
Duas semanas depois da vigência da lei, o número de fumantes passivos nos bares escoceses caiu 86%. As concentrações de cotinina na população adulta do país diminuíram 42%, resultado próximo dos 47% obtidos em Nova York, depois da entrada em vigor de lei semelhante.
Embora o estudo escocês tenha sido o mais completo até hoje publicado, está longe de ser a primeira demonstração dos benefícios da proibição do fumo em espaços comuns.
Em 2004, entre os 68 mil habitantes da cidade norte-americana de Helena, o número de internações por infarto do miocárdio diminuiu 40%. Entre os 148 mil habitantes de Pueblo, no Colorado, a queda foi de 15%. Nos 220 mil de Saskatoon, no Canadá, 13%.
Em Roma, cidade com 2,7 milhões de habitantes, o número de casos caiu 8% naqueles com mais de 65 anos, e 11% na população abaixo dessa idade.
Todos os estudos demonstram que legislações restritivas ao fumo em espaços públicos não só reduzem o número de fumantes passivos como fazem cair os níveis de cotinina no sangue dos próprios fumantes.
Embora por ignorância, má-fé ou ganância exista quem se oponha a elas, não há mais dúvida de que leis desse tipo beneficiam indistintamente crianças e adultos, jovens e velhos, quem fuma e quem não o faz.
Se o Brasil adotasse leis como as dos países norte-americanos e europeus, quanto sofrimento nós evitaríamos?
Até quando faremos parte do grupo de países atrasados, que dá ao dependente de nicotina o direito de jogar a fumaça de seu cigarro para dentro dos pulmões dos outros?
Dr.Drauzio Varella
Macaco
A inteligência do cachorro encanta os que com ele convivem; a dos macacos, então, nem se fala. Babuínos estabelecem hierarquias de comando e organizam estruturas sociais bastante complexas. Chimpanzés, gorilas e orangotangos vivem em comunidades com traços culturais tão singulares, que os primatologistas identificam a origem geográfica de determinado indivíduo, com base no uso de ferramentas para quebrar cascas de frutos ou na preparação de gravetos para caçar cupins nos ocos das árvores.
A partir dos estudos com primatas não-humanos, publicados nos anos 1960, a defesa dogmática de que a inteligência seria dom exclusivo do Homo sapiens tornou-se insustentável.
Entender a inteligência de que tanto nos orgulhamos como resultado de milhões de anos de seleção natural obedece à lógica evolutiva, visto que a evolução não cria características especiais para favorecer ou prejudicar qualquer espécie. Como atestam os dinossauros, a natureza é madrasta impiedosa.
De onde emergiu a consciência humana?
A resposta é bem simples: da consciência dos animais. Não há justificativa para considerá-la propriedade exclusiva da espécie humana, respondeu Ernst Mayr, o biólogo mais influente do século passado.
Aceita essa premissa, na última década, o foco da primatologia se deslocou para o estudo das características únicas dos seres humanos. Afinal, não se tem notícia de outros animais que componham sinfonias ou resolvam equações do segundo grau.
Uma conferência realizada há três meses na Alemanha reuniu cientistas interessados nesse tema. Para alguns, nossa capacidade de trocar a recompensa imediata por outra futura (sem a qual sequer iríamos à escola) é que nos diferencia de animais mais impulsivos. Outros argumentam que a paciência necessária para aguardar resultados mais promissores também tem raízes evolutivas, e que em certas situações experimentais somos mais imediatistas do que os chimpanzés.
Embora chimpanzés possam dar manifestações incontestáveis de paciência para aguardar resultados de suas ações, entre eles falta uma característica tipicamente humana: o altruísmo desinteressado. Há evidências claras da existência de comportamentos cooperativos e de altruísmo em outras espécies, mas eles estão sempre associados a interesses de reciprocidade. O verdadeiro altruísmo parece exigir níveis elevados de cognição que envolvem a capacidade de decifrar o estado mental do outro (a teoria da mente).
A generosidade para compartilhar alimentos com estranhos, cuidar de filhos alheios e ir à guerra em defesa de ideais abstratos resulta de processos adaptativos independentes, combinados pelos seres humanos de forma absolutamente original.
Todos os pesquisadores concordam que a habilidade para criar culturas complexas é característica unicamente nossa. Enquanto os demais primatas têm dificuldade de aprender com seus semelhantes, nós somos imitadores tão hábeis que os conhecimentos adquiridos por uma geração são transmitidos de pai para filho.
No entanto, a criatividade humana é fenômeno relativamente moderno. Durante milênios, a incapacidade de inovar manteve os hominídeos num pântano intelectual bem próximo dos demais primatas. Os museus mostram que as formas de machados, lanças, flechas e utensílios domésticos permaneceram imutáveis por centenas de milhares de anos, em diversas populações.
Como explicar que uma espécie de primatas nascida há 5 milhões de anos, apenas nos últimos 50 mil anos tenha aprendido a desenhar em cavernas, criado rituais para enterrar os mortos, a agricultura e as inovações tecnológicas que levaram o homem à lua?
Que processos adaptativos possibilitaram esse salto evolutivo que nos tirou do estágio pré-simbólico, abrindo as portas para o universo de símbolos característico das culturas contemporâneas?
Segundo o neurologista Daniele Riva, o substrato neurobiológico que precedeu esse salto é desconhecido. O domínio do instrumental simbólico foi mediado pela linguagem, responsável pela reorganização da mente, da consciência e do mundo social, fenômenos a partir dos quais emergiram valores culturais diversificados e inovadores.
Tais mecanismos adaptativos poderiam repetir-se com outros primatas? Surgirão macacos cultos como nós? Teoricamente, é possível; desde que haja tempo suficiente e o Homo sapiens seja extinto. Enquanto andarmos por aqui, eles não terão a menor chance.
DR.DRAUZIO VARELLA
A partir dos estudos com primatas não-humanos, publicados nos anos 1960, a defesa dogmática de que a inteligência seria dom exclusivo do Homo sapiens tornou-se insustentável.
Entender a inteligência de que tanto nos orgulhamos como resultado de milhões de anos de seleção natural obedece à lógica evolutiva, visto que a evolução não cria características especiais para favorecer ou prejudicar qualquer espécie. Como atestam os dinossauros, a natureza é madrasta impiedosa.
De onde emergiu a consciência humana?
A resposta é bem simples: da consciência dos animais. Não há justificativa para considerá-la propriedade exclusiva da espécie humana, respondeu Ernst Mayr, o biólogo mais influente do século passado.
Aceita essa premissa, na última década, o foco da primatologia se deslocou para o estudo das características únicas dos seres humanos. Afinal, não se tem notícia de outros animais que componham sinfonias ou resolvam equações do segundo grau.
Uma conferência realizada há três meses na Alemanha reuniu cientistas interessados nesse tema. Para alguns, nossa capacidade de trocar a recompensa imediata por outra futura (sem a qual sequer iríamos à escola) é que nos diferencia de animais mais impulsivos. Outros argumentam que a paciência necessária para aguardar resultados mais promissores também tem raízes evolutivas, e que em certas situações experimentais somos mais imediatistas do que os chimpanzés.
Embora chimpanzés possam dar manifestações incontestáveis de paciência para aguardar resultados de suas ações, entre eles falta uma característica tipicamente humana: o altruísmo desinteressado. Há evidências claras da existência de comportamentos cooperativos e de altruísmo em outras espécies, mas eles estão sempre associados a interesses de reciprocidade. O verdadeiro altruísmo parece exigir níveis elevados de cognição que envolvem a capacidade de decifrar o estado mental do outro (a teoria da mente).
A generosidade para compartilhar alimentos com estranhos, cuidar de filhos alheios e ir à guerra em defesa de ideais abstratos resulta de processos adaptativos independentes, combinados pelos seres humanos de forma absolutamente original.
Todos os pesquisadores concordam que a habilidade para criar culturas complexas é característica unicamente nossa. Enquanto os demais primatas têm dificuldade de aprender com seus semelhantes, nós somos imitadores tão hábeis que os conhecimentos adquiridos por uma geração são transmitidos de pai para filho.
No entanto, a criatividade humana é fenômeno relativamente moderno. Durante milênios, a incapacidade de inovar manteve os hominídeos num pântano intelectual bem próximo dos demais primatas. Os museus mostram que as formas de machados, lanças, flechas e utensílios domésticos permaneceram imutáveis por centenas de milhares de anos, em diversas populações.
Como explicar que uma espécie de primatas nascida há 5 milhões de anos, apenas nos últimos 50 mil anos tenha aprendido a desenhar em cavernas, criado rituais para enterrar os mortos, a agricultura e as inovações tecnológicas que levaram o homem à lua?
Que processos adaptativos possibilitaram esse salto evolutivo que nos tirou do estágio pré-simbólico, abrindo as portas para o universo de símbolos característico das culturas contemporâneas?
Segundo o neurologista Daniele Riva, o substrato neurobiológico que precedeu esse salto é desconhecido. O domínio do instrumental simbólico foi mediado pela linguagem, responsável pela reorganização da mente, da consciência e do mundo social, fenômenos a partir dos quais emergiram valores culturais diversificados e inovadores.
Tais mecanismos adaptativos poderiam repetir-se com outros primatas? Surgirão macacos cultos como nós? Teoricamente, é possível; desde que haja tempo suficiente e o Homo sapiens seja extinto. Enquanto andarmos por aqui, eles não terão a menor chance.
DR.DRAUZIO VARELLA
Remédio para dormir.
Penso duas vezes antes de receitar um remédio para dormir.
Não que tenha sido contaminado pela filosofia dos que se consideram naturalistas modernos, portanto inimigos de soluções químicas. Nem que tenha preconceito contra os insones ou julgue esses medicamentos ineficientes, perigosos e cheios de efeitos colaterais; pelo contrário, a indústria farmacêutica desenvolveu drogas seguras capazes de induzir sono reparador com o mínimo de ressaca no dia seguinte.
É justamente essa eficácia farmacológica a fonte de minhas incertezas. Distúrbios do sono são um dos grandes pesadelos da vida urbana; afligem milhares de mulheres e homens que atravessam a madrugada sem achar posição na cama, com a cabeça ligada nos compromissos a cumprir, em problemas sem solução e nas cicatrizes deixadas pelo passado remoto.
O problema com o uso de qualquer droga psicoativa é o fenômeno da tolerância, estratégia que o cérebro engendrou para adaptar-se à presença constante da droga na circulação sanguínea.
É a tolerância que explica por que, na adolescência, ficávamos embriagados com um quinto da dose de álcool que bebemos hoje sem dar vexame. É ela que arruína as finanças dos usuários de cocaína, faz o maconheiro velho queixar-se da qualidade da maconha atual e torna dependente de pílulas para dormir a legião dos que padecem de insônia.
Faço essas reflexões, leitor, por causa de um fato sucedido com o doutor Fritz, numa noite de verão. Renomado especialista em cálculos de grandes estruturas, doutor Fritz trabalhava como engenheiro-chefe de uma empresa alemã. Bastava uma ponte tremer, um arranha-céu inclinar meio grau ou um estádio de futebol balançar sob o entusiasmo da torcida em qualquer lugar do mundo, para a empresa convocá-lo com o inseparável computador e a mala pequena com duas mudas de roupa para não perder tempo nos aeroportos.
Era casado com uma conterrânea, com quem teve dois filhos. Depois que os rapazes saíram de casa, a esposa se dedicou em tempo integral aos afazeres domésticos: refeições no mesmo horário, objetos nos locais de sempre, panelas impecavelmente areadas e os cuidados com o jardim que todos elogiavam. O menor desvio da rotina diária deixava-a em pânico; não havia nascido para imprevistos, reconhecia.
Formavam um desses casais harmoniosos, em que cada um aceita e se adapta às idiossincrasias do outro.
A organização rígida do lar servia à profissão do marido, homem de pouco falar, fascinado pelo pensamento abstrato e pela racionalidade, desatento à vida social, sempre entretido com os livros no pequeno escritório ao lado da sala, espaço no qual se refugiava todas as noites, com exceção das quintas-feiras em que a Orquestra Sinfônica se apresentava, e dos sábados às 20 horas, quando assistiam aos filmes que a esposa ia buscar na locadora.
A tranquilidade dele, no entanto, foi abalada quando a empresa disputou uma concorrência internacional para a construção de uma barragem gigantesca, que o obrigou a viajar amiúde para um país distante, trocar inúmeros e-mails, manter conversas telefônicas intermináveis e um sem número de vídeoconferências.
A pressão foi tão intensa, que começou a perder o sono. Habituado a ir para cama impreterivelmente às dez e meia, imaginou que se levantasse mais cedo ou se deitasse mais tarde conseguiria dormir melhor, mas as tentativas foram infrutíferas. Seu problema não era o de conciliar o sono, mas acordar duas ou três horas mais tarde, com o pensamento invadido pelos cálculos e os problemas da maldita barragem.
Então, naquela noite fatídica, exausto, decidiu tomar um tranqüilizante, pela primeira vez em 57 anos. Foi para a cama, conversou alguns minutos com a mulher sob a luz do abajur e perdeu contato com o mundo.
Acordou surpreso às sete da manhã. A esposa estava a seu lado de olhos abertos, sorridente e nua:
-- Querido, foi a noite mais maravilhosa de nossas vidas.
Doutor Fritz ficou pasmo. Não lembrava de nada.
Pouco mais tarde telefonou para o médico, que lhe explicou tratar-se de um tipo de amnésia transitória induzida por tranquilizantes, acontecimento raro, desprovido de maiores consequências.
Ele não se conformou, entretanto. O que o inquietava não era propriamente o efeito colateral da medicação:
-- Sem me lembrar do que fiz, o senhor já imaginou a decepção dela da próxima vez?
Dr.Drauzio Varella
Não que tenha sido contaminado pela filosofia dos que se consideram naturalistas modernos, portanto inimigos de soluções químicas. Nem que tenha preconceito contra os insones ou julgue esses medicamentos ineficientes, perigosos e cheios de efeitos colaterais; pelo contrário, a indústria farmacêutica desenvolveu drogas seguras capazes de induzir sono reparador com o mínimo de ressaca no dia seguinte.
É justamente essa eficácia farmacológica a fonte de minhas incertezas. Distúrbios do sono são um dos grandes pesadelos da vida urbana; afligem milhares de mulheres e homens que atravessam a madrugada sem achar posição na cama, com a cabeça ligada nos compromissos a cumprir, em problemas sem solução e nas cicatrizes deixadas pelo passado remoto.
O problema com o uso de qualquer droga psicoativa é o fenômeno da tolerância, estratégia que o cérebro engendrou para adaptar-se à presença constante da droga na circulação sanguínea.
É a tolerância que explica por que, na adolescência, ficávamos embriagados com um quinto da dose de álcool que bebemos hoje sem dar vexame. É ela que arruína as finanças dos usuários de cocaína, faz o maconheiro velho queixar-se da qualidade da maconha atual e torna dependente de pílulas para dormir a legião dos que padecem de insônia.
Faço essas reflexões, leitor, por causa de um fato sucedido com o doutor Fritz, numa noite de verão. Renomado especialista em cálculos de grandes estruturas, doutor Fritz trabalhava como engenheiro-chefe de uma empresa alemã. Bastava uma ponte tremer, um arranha-céu inclinar meio grau ou um estádio de futebol balançar sob o entusiasmo da torcida em qualquer lugar do mundo, para a empresa convocá-lo com o inseparável computador e a mala pequena com duas mudas de roupa para não perder tempo nos aeroportos.
Era casado com uma conterrânea, com quem teve dois filhos. Depois que os rapazes saíram de casa, a esposa se dedicou em tempo integral aos afazeres domésticos: refeições no mesmo horário, objetos nos locais de sempre, panelas impecavelmente areadas e os cuidados com o jardim que todos elogiavam. O menor desvio da rotina diária deixava-a em pânico; não havia nascido para imprevistos, reconhecia.
Formavam um desses casais harmoniosos, em que cada um aceita e se adapta às idiossincrasias do outro.
A organização rígida do lar servia à profissão do marido, homem de pouco falar, fascinado pelo pensamento abstrato e pela racionalidade, desatento à vida social, sempre entretido com os livros no pequeno escritório ao lado da sala, espaço no qual se refugiava todas as noites, com exceção das quintas-feiras em que a Orquestra Sinfônica se apresentava, e dos sábados às 20 horas, quando assistiam aos filmes que a esposa ia buscar na locadora.
A tranquilidade dele, no entanto, foi abalada quando a empresa disputou uma concorrência internacional para a construção de uma barragem gigantesca, que o obrigou a viajar amiúde para um país distante, trocar inúmeros e-mails, manter conversas telefônicas intermináveis e um sem número de vídeoconferências.
A pressão foi tão intensa, que começou a perder o sono. Habituado a ir para cama impreterivelmente às dez e meia, imaginou que se levantasse mais cedo ou se deitasse mais tarde conseguiria dormir melhor, mas as tentativas foram infrutíferas. Seu problema não era o de conciliar o sono, mas acordar duas ou três horas mais tarde, com o pensamento invadido pelos cálculos e os problemas da maldita barragem.
Então, naquela noite fatídica, exausto, decidiu tomar um tranqüilizante, pela primeira vez em 57 anos. Foi para a cama, conversou alguns minutos com a mulher sob a luz do abajur e perdeu contato com o mundo.
Acordou surpreso às sete da manhã. A esposa estava a seu lado de olhos abertos, sorridente e nua:
-- Querido, foi a noite mais maravilhosa de nossas vidas.
Doutor Fritz ficou pasmo. Não lembrava de nada.
Pouco mais tarde telefonou para o médico, que lhe explicou tratar-se de um tipo de amnésia transitória induzida por tranquilizantes, acontecimento raro, desprovido de maiores consequências.
Ele não se conformou, entretanto. O que o inquietava não era propriamente o efeito colateral da medicação:
-- Sem me lembrar do que fiz, o senhor já imaginou a decepção dela da próxima vez?
Dr.Drauzio Varella
“light” e “ultralight
Os americanos acabam de proibir o uso das palavras “light” e “ultralight” nos maços de cigarro. Cigarros dessas marcas têm gosto diferente dos comuns, porque são tratados com diversos compostos químicos e utilizam outro tipo de filtro.
Você não será ingênuo a ponto de supor que as companhias produtoras lançaram essas marcas no mercado para proteger a saúde dos dependentes de nicotina. Não as subestime, leitor, estamos falando de organizações inescrupulosas chefiadas por malfeitores profissionais.
Há quarenta anos, elas o fizeram com a intenção malévola de conquistar o público feminino e os adolescentes, e de dar aos homens que já fumavam a impressão de que concentrações menores de alcatrão e nicotina causariam menos câncer e doenças pulmonares.
Desde os anos 1950, os executivos que as dirigiam, os publicitários e os cientistas alugados por elas, estavam cansados de saber que cigarros “lights” são ainda mais perniciosos porque contêm mais aditivos e por causa das características farmacológicas da nicotina.
Veja só. Qualquer droga inalada cai na circulação sanguínea muito mais depressa do que ao ser injetada na veia. No caso do fumo, são necessários apenas seis a dez segundos para que a nicotina atinja o cérebro, velocidade que explica porque a primeira tragada traz alívio imediato à crise de abstinência do fumante.
Uma das características fundamentais da dependência química é que o controle da dose administrada não depende da força de vontade do dependente.
Como a nicotina se liga a receptores existentes nas membranas dos neurônios cerebrais, quando a droga é excretada, eles ficam vazios e o fumante entra em desespero. Aplacá-lo exige acender mais um, para que a droga absorvida nos alvéolos pulmonares chegue aos neurônios em concentração suficiente para ocupar todos os receptores disponíveis.
Desse modo, quem controla a quantidade de nicotina a ser absorvida em cada tragada é o cérebro do fumante. Se o cigarro é forte, poucas tragadas fornecem a dose necessária. Quando é mais fraco, elas se tornam mais profundas, demoradas, e o intervalo entre uma e outra encurta. Como consequência, a fuligem e os seis mil compostos químicos resultantes da combustão do fumo entram em contato mais íntimo e destruidor com os brônquios e alvéolos pulmonares.
Em documentação interna datada de 1983, tornada pública por ordem judicial, executivos da British American Tobacco (controladora da Souza Cruz, no Brasil) recomendavam a seus subalternos: “O ideal é que os cigarros de baixos teores não pareçam diferentes dos normais. Eles devem ser capazes de liberar 100% mais nicotina do que o fazem nas máquinas de fumar” - usadas nos testes oficiais.
Foram essas as razões que levaram as autoridades americanas a proibir a propaganda criminosa que insinua haver vantagens para a saúde nos cigarros “lights” e “ultralights”.
Com a falta de escrúpulos de sempre, entretanto, a reação das companhias produtoras foi imediata: criar embalagens de cores mais claras em substituição aos rótulos proibidos, contando que o usuário saberá reconhecer sua marca predileta. Pretendem mudar as cores dos maços para perpetuar o crime de falsidade ideológica cometido impunemente contra a população fumante, durante quase meio século.
Material que chegou às mãos do The New York Times mostra que uma das companhias pretende adotar o seguinte código nas embalagens: maço vermelho para cigarros comuns; verde para os mentolados; azul, dourado e verde claro para os “lights”; prateado e alaranjado para os “ultralights”.
Estudo publicado em setembro do ano passado no European Journal of Public Health revelou que mulheres e homens adultos acreditam que cigarros com maços prateados ou dourados fazem menos mal e são mais fáceis de largar, e que os adolescentes tendem a experimentá-los com mais curiosidade.
O Brasil poderia inovar e dar um exemplo para o mundo, como fizemos no caso da Aids. Por que o Ministério da Saúde não proíbe completamente o uso de cores em maços de cigarros? As embalagens conteriam apenas o nome da marca sobre o fundo branco e as imagens de advertência atuais.
Não custaria um centavo para os cofres públicos. Bastaria ter coragem para enfrentar as demandas judiciais e resistir ao poder corruptor dos fabricantes.
Dr.Drauzio Varella
Você não será ingênuo a ponto de supor que as companhias produtoras lançaram essas marcas no mercado para proteger a saúde dos dependentes de nicotina. Não as subestime, leitor, estamos falando de organizações inescrupulosas chefiadas por malfeitores profissionais.
Há quarenta anos, elas o fizeram com a intenção malévola de conquistar o público feminino e os adolescentes, e de dar aos homens que já fumavam a impressão de que concentrações menores de alcatrão e nicotina causariam menos câncer e doenças pulmonares.
Desde os anos 1950, os executivos que as dirigiam, os publicitários e os cientistas alugados por elas, estavam cansados de saber que cigarros “lights” são ainda mais perniciosos porque contêm mais aditivos e por causa das características farmacológicas da nicotina.
Veja só. Qualquer droga inalada cai na circulação sanguínea muito mais depressa do que ao ser injetada na veia. No caso do fumo, são necessários apenas seis a dez segundos para que a nicotina atinja o cérebro, velocidade que explica porque a primeira tragada traz alívio imediato à crise de abstinência do fumante.
Uma das características fundamentais da dependência química é que o controle da dose administrada não depende da força de vontade do dependente.
Como a nicotina se liga a receptores existentes nas membranas dos neurônios cerebrais, quando a droga é excretada, eles ficam vazios e o fumante entra em desespero. Aplacá-lo exige acender mais um, para que a droga absorvida nos alvéolos pulmonares chegue aos neurônios em concentração suficiente para ocupar todos os receptores disponíveis.
Desse modo, quem controla a quantidade de nicotina a ser absorvida em cada tragada é o cérebro do fumante. Se o cigarro é forte, poucas tragadas fornecem a dose necessária. Quando é mais fraco, elas se tornam mais profundas, demoradas, e o intervalo entre uma e outra encurta. Como consequência, a fuligem e os seis mil compostos químicos resultantes da combustão do fumo entram em contato mais íntimo e destruidor com os brônquios e alvéolos pulmonares.
Em documentação interna datada de 1983, tornada pública por ordem judicial, executivos da British American Tobacco (controladora da Souza Cruz, no Brasil) recomendavam a seus subalternos: “O ideal é que os cigarros de baixos teores não pareçam diferentes dos normais. Eles devem ser capazes de liberar 100% mais nicotina do que o fazem nas máquinas de fumar” - usadas nos testes oficiais.
Foram essas as razões que levaram as autoridades americanas a proibir a propaganda criminosa que insinua haver vantagens para a saúde nos cigarros “lights” e “ultralights”.
Com a falta de escrúpulos de sempre, entretanto, a reação das companhias produtoras foi imediata: criar embalagens de cores mais claras em substituição aos rótulos proibidos, contando que o usuário saberá reconhecer sua marca predileta. Pretendem mudar as cores dos maços para perpetuar o crime de falsidade ideológica cometido impunemente contra a população fumante, durante quase meio século.
Material que chegou às mãos do The New York Times mostra que uma das companhias pretende adotar o seguinte código nas embalagens: maço vermelho para cigarros comuns; verde para os mentolados; azul, dourado e verde claro para os “lights”; prateado e alaranjado para os “ultralights”.
Estudo publicado em setembro do ano passado no European Journal of Public Health revelou que mulheres e homens adultos acreditam que cigarros com maços prateados ou dourados fazem menos mal e são mais fáceis de largar, e que os adolescentes tendem a experimentá-los com mais curiosidade.
O Brasil poderia inovar e dar um exemplo para o mundo, como fizemos no caso da Aids. Por que o Ministério da Saúde não proíbe completamente o uso de cores em maços de cigarros? As embalagens conteriam apenas o nome da marca sobre o fundo branco e as imagens de advertência atuais.
Não custaria um centavo para os cofres públicos. Bastaria ter coragem para enfrentar as demandas judiciais e resistir ao poder corruptor dos fabricantes.
Dr.Drauzio Varella
A circuncisão é arma de grande valor no combate à AIDS.
A circuncisão é arma de grande valor no combate à AIDS.
As primeiras evidências surgiram nos anos 1980, quando alguns médicos observaram que a prevalência da infecção pelo HIV, na Ásia e na África, parecia mais baixa, em regiões nas quais os homens eram circuncidados por imposição religiosa.
Vários estudos realizados nos anos seguintes obtiveram resultados contraditórios, até que em 2002, Bertram Auvert, da Universidade de Versalhes, realizou o primeiro trabalho criterioso para comparar a prevalência do HIV entre homens submetidos ou não à circuncisão, em Orange Farm, na África do Sul, comunidade com grande número de casos de AIDS.
Depois de doze meses, o comitê de segurança do estudo decidiu interromper o acompanhamento e oferecer circuncisão para todos os participantes. Os dados eram indiscutíveis: 60% de proteção entre os homens heterossexuais operados.
Desde essa data, mais dois ensaios clínicos foram efetuados: um no Quênia, outro em Uganda. Ambos foram interrompidos por causa dos resultados francamente favoráveis à circuncisão.
Hoje ninguém mais discute: em homens heterossexuais, ela reduz em 50% a 60% os índices de transmissão do HIV. Os epidemiologistas calculam que 3 milhões de vidas poderiam ser salvas, apenas na região abaixo do deserto do Saara, caso esse procedimento cirúrgico fosse colocado à disposição.
Além da proteção contra o HIV, homens circuncidados apresentam menos infecções pelos papilomavírus, pelo treponema da sífilis e pelos vírus do herpes genital.
Os mecanismos através dos quais a circuncisão protege são mal conhecidos. Provavelmente, a pele que recobre a glande cria um espaço que funciona como reservatório para o HIV (e outros germes) e assegura contato prolongado do vírus com as mucosas, facilitando seu acesso à corrente sanguínea.
Nos países em que a prevalência do HIV é alta, estaria a circuncisão indicada para todos os homens?
Infelizmente, não existe consenso. Primeiro, porque os críticos a consideram um procedimento cirúrgico sujeito a complicações; segundo, por motivos econômicos e políticos.
O primeiro argumento é mais fácil de discutir. De fato, quando a cirurgia é realizada por pessoas despreparadas, em locais inadequados e com más condições de higiene, as complicações ocorrem com maior frequência. Caso contrário, são bem raras. Nos estudos africanos citados, elas variaram entre 1,7% e 3,6%, números não muito distantes dos 0,2% a 2% referentes às complicações das circuncisões realizadas em meninos, nos Estados Unidos.
O segundo argumento é mais problemático. A justificativa econômica se baseia no fato de que para oferecer circuncisões em larga escala, seria necessário alocar recursos materiais e deslocar profissionais que prestam serviços em outras áreas da saúde (atendimento à infância, cuidados maternos, combate à tuberculose, etc.), justamente em países pobres que se ressentem da escassez de ambos.
Além dessas restrições economicologísticas, alguns governantes dos países africanos mais atingidos pela epidemia tendem a receber com desconfiança as sugestões que vêm de seus antigos colonizadores. Ainda mais, quando são propostos procedimentos cirúrgicos.
Alegam que depois da circuncisão os homens poderiam sentir-se mais confiantes e engajar-se em práticas sexuais inseguras, e que não há evidências diretas de que as mulheres seriam protegidas.
Os estudos, no entanto, mostram que o comportamento sexual dos homens circuncidados não difere significativamente dos demais e que eles se tornam mais receptivos aos programas de educação sexual. Quanto à proteção oferecida às mulheres, as evidências indiretas são indiscutíveis: quanto menor o número de homens infectados numa comunidade, mais baixo o risco de transmissão do vírus nas relações heterossexuais.
Qualquer estratégia preventiva para combater a transmissão de uma doença infecciosa deve ser baseada em dados científicos. No caso da epidemia de AIDS, infelizmente, a intromissão indevida de grupos que defendem interesses religiosos, econômicos ou políticos retarda e às vezes impede a introdução de programas que evitariam muito sofrimento humano.
No caso da circuncisão em países com alta prevalência de AIDS, leitor, se dispuséssemos de uma vacina capaz de proteger 50% a 60% dos homens, deixaríamos de vacinar os meninos antes da puberdade?
Dr. Drauzio Varella
As primeiras evidências surgiram nos anos 1980, quando alguns médicos observaram que a prevalência da infecção pelo HIV, na Ásia e na África, parecia mais baixa, em regiões nas quais os homens eram circuncidados por imposição religiosa.
Vários estudos realizados nos anos seguintes obtiveram resultados contraditórios, até que em 2002, Bertram Auvert, da Universidade de Versalhes, realizou o primeiro trabalho criterioso para comparar a prevalência do HIV entre homens submetidos ou não à circuncisão, em Orange Farm, na África do Sul, comunidade com grande número de casos de AIDS.
Depois de doze meses, o comitê de segurança do estudo decidiu interromper o acompanhamento e oferecer circuncisão para todos os participantes. Os dados eram indiscutíveis: 60% de proteção entre os homens heterossexuais operados.
Desde essa data, mais dois ensaios clínicos foram efetuados: um no Quênia, outro em Uganda. Ambos foram interrompidos por causa dos resultados francamente favoráveis à circuncisão.
Hoje ninguém mais discute: em homens heterossexuais, ela reduz em 50% a 60% os índices de transmissão do HIV. Os epidemiologistas calculam que 3 milhões de vidas poderiam ser salvas, apenas na região abaixo do deserto do Saara, caso esse procedimento cirúrgico fosse colocado à disposição.
Além da proteção contra o HIV, homens circuncidados apresentam menos infecções pelos papilomavírus, pelo treponema da sífilis e pelos vírus do herpes genital.
Os mecanismos através dos quais a circuncisão protege são mal conhecidos. Provavelmente, a pele que recobre a glande cria um espaço que funciona como reservatório para o HIV (e outros germes) e assegura contato prolongado do vírus com as mucosas, facilitando seu acesso à corrente sanguínea.
Nos países em que a prevalência do HIV é alta, estaria a circuncisão indicada para todos os homens?
Infelizmente, não existe consenso. Primeiro, porque os críticos a consideram um procedimento cirúrgico sujeito a complicações; segundo, por motivos econômicos e políticos.
O primeiro argumento é mais fácil de discutir. De fato, quando a cirurgia é realizada por pessoas despreparadas, em locais inadequados e com más condições de higiene, as complicações ocorrem com maior frequência. Caso contrário, são bem raras. Nos estudos africanos citados, elas variaram entre 1,7% e 3,6%, números não muito distantes dos 0,2% a 2% referentes às complicações das circuncisões realizadas em meninos, nos Estados Unidos.
O segundo argumento é mais problemático. A justificativa econômica se baseia no fato de que para oferecer circuncisões em larga escala, seria necessário alocar recursos materiais e deslocar profissionais que prestam serviços em outras áreas da saúde (atendimento à infância, cuidados maternos, combate à tuberculose, etc.), justamente em países pobres que se ressentem da escassez de ambos.
Além dessas restrições economicologísticas, alguns governantes dos países africanos mais atingidos pela epidemia tendem a receber com desconfiança as sugestões que vêm de seus antigos colonizadores. Ainda mais, quando são propostos procedimentos cirúrgicos.
Alegam que depois da circuncisão os homens poderiam sentir-se mais confiantes e engajar-se em práticas sexuais inseguras, e que não há evidências diretas de que as mulheres seriam protegidas.
Os estudos, no entanto, mostram que o comportamento sexual dos homens circuncidados não difere significativamente dos demais e que eles se tornam mais receptivos aos programas de educação sexual. Quanto à proteção oferecida às mulheres, as evidências indiretas são indiscutíveis: quanto menor o número de homens infectados numa comunidade, mais baixo o risco de transmissão do vírus nas relações heterossexuais.
Qualquer estratégia preventiva para combater a transmissão de uma doença infecciosa deve ser baseada em dados científicos. No caso da epidemia de AIDS, infelizmente, a intromissão indevida de grupos que defendem interesses religiosos, econômicos ou políticos retarda e às vezes impede a introdução de programas que evitariam muito sofrimento humano.
No caso da circuncisão em países com alta prevalência de AIDS, leitor, se dispuséssemos de uma vacina capaz de proteger 50% a 60% dos homens, deixaríamos de vacinar os meninos antes da puberdade?
Dr. Drauzio Varella
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